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quarta-feira, 18 de março de 2020

Aprendizagem pelas consequências - o reforço - capítulo 3.

Skinner afirma que o comportamento respondente (relação entre o organismo e o ambiente) não consegue abarcar toda a complexidade do comportamento humano e dos organismos em geral.  O comportamento operante abraca toda a complexidade do comportamento humano e dos organismos em geral.
  • COMPORTAMENTO OPERANTE é aquele que produz conseqüências (modificações no ambiente) e é afetado por elas.  São comportamentos aprendidos em função de suas conseqüências, ou seja, as consequências daquilo que fazemos nos mantém no mesmo caminho (mantém mesmo comportamento), ou nos afasta dele (para de se comportar).
  •  Entender o comportamento operante é fundamental para compreendermos como aprendemos nossas habilidades e nossos conhecimentos, ou seja, falar, ler, escrever, raciocinar, abstrair, etc.), e até mesmo como aprendemos a ser quem somos, a ter nossa personalidade.
  • O comportamento respondente(CR) é aprendido por meio do condicionamento respondente.
               S - R  (uma alteração no ambiente elicia uma resposta no organismo)
             
             O  CR é involuntário e pode ser inato ou aprendido.
             Exemplo de CR Inato: A luz (S) é uma contingência que elicia o comportamento de contração da pupila, esse comportamento é inato.

         O CR aprendido depende da adição ou emparelhamento de um estímulo neutro a um estímulo eliciador de respondente forte o bastante para eliciar a resposta.
             Exemplo de CR aprendido:  O cão saliva toda vez que vai comer, A comida(estímulo) elicia a resposta inata da (salivação) no cão. Ao emparelhar uma sineta (estímulo neutro) à comida( estímulo eliciador da salivação) observou-se que, depois de repetidas vezes do emparelhamento, toda vez que se tocava a sineta, mesmo sem a comida, o cão apresentava a salivação. O estímulo neutro passa a eliciar a resposta quando emparelhado a um estímulo suficientemente forte para eliciar uma resposta.
  • comportamento operante  (CO) é aprendido por meio das consequências, pois a maior parte de nossos comportamentos produzem consequências, e essas consequências são mudanças no ambiente.
  • Exemplo 1: Estender o braço(comportamento) para pegar o saleiro(mudança no ambiente: o saleiro passa de um local a outro). Nesse caso o comportamento produziu diretamente a mudança no ambiente.
  • Exemplo 2: Pedir a alguém(comportamento de alguém modifica o comportamento de outra pessoa) que lhe passe o saleiro (a outra pessoa provoca mudança no ambiente). Nesse caso, o comportamento produziu indiretamente a mudança no ambiente)
          R - C ( uma resposta emitida pelo organismo produz uma alteração no ambiente que são as consequências).Exemplos:

        COMPORTAMENTO               CONSEQUÊNCIA
          Apertar um botão                       chegar o elevador
          Girar uma torneira                      obter água
          Fazer uma pergunta                    receber uma resposta
          Estudar                                        tirar boas notas
          Telefonar                                     Falar com alguém.
          Criança faz birra                         Conseguir o que quer
          Dizer que está deprimido           Chama atenção das pessoas.

O COMPORTAMENTO (RESPOSTA) É AFETADO, CONTROLADO POR SUAS CONSEQUÊNCIAS
São as consequências dos comportamentos que irão determinar se o comportamento se mantém ou se extingue, se ocorrerão com menor ou maior frequência.  Logo, as consequências tanto mantém a influência sobre comportamentos adequados quanto reduzem a frequência de comportamentos inadequados ou indesejados.

          Exemplo 1: Pedir um favor a alguém (comportamento) a pessoa faz, porém,com má vontade (consequências). A má vontade fará com que o próximo favor, não seja mais pedido àquela pessoa, extinguindo aquele comportamento.

      Exemplo 2: Pedir um favor a alguém (comportamento) a pessoa faz, com boa vontade (consequências). A boa vontade aumentará as chances de que da próxima vez, torne a pedir o favor à mesma pessoa, mantendo aquele comportamento.

           Exemplo de controle do comportamento por suas consequências: ratinho pressiona a barra (comportamento) e sai água(consequência). Enquanto estiver saindo água, o ratinho vai continuar pressionando a barra, logo o seu comportamento é controlado pelas consequências.  Já uma criança que faz birra(comportamento) e consegue o que quer (consequências) tende a fazer birra toda vez que quiser alguma coisa. Seu comportamento é controlado pelas consequências.
  • Quando as consequências aumentam a probabilidade do comportamento acontecer, chama-se de REFORÇO. Logo, REFORÇO é um tipo de consequência que aumenta a probabilidade do comportamento se repetir. No exemplo da criança que faz birra, o fato dos pais darem a ela o que deseja, reforça o seu comportamento de fazer birra.
DIFERENÇA ENTRE REFORÇO NATURAL E REFORÇO ARBITRÁRIO

REFORÇO NATURAL: a consequência reforçadora do comportamento é o produto direto do próprio comportamento. Exemplo: Tocar uma música(comportamento)  em casa (satisfação pessoal em ouvir a música).

REFORÇO ARBITRÁRIO: a consequência do comportamento é um produto indireto do comportamento. Exemplo: Tocar uma música(comportamento) num bar, em troca de uma remuneração ( remuneração é o produto indireto do comportamento). As recompensas oferecidas em prol de determinados comportamentos são reforços arbitrários.

EXTINÇÃO OPERANTE é quando ocorre a suspensão de UMA CONSEQUÊNCIA REFORÇADORA, que leva à diminuição da frequência de ocorrência do comportamento.

Exemplo 1: Uma pessoa telefona quase todos os dias para o celular de um amigo (comportamento) e conversa com ele (reforço); o amigo muda o número do celular e não a avisa. A pessoa liga e não é atendida (suspensão do reforço: extinção). Quantas vezes ela ligará para o amigo antes de desistir? 

Exemplo 2: Outro exemplo: um ratinho pressiona a barra em uma caixa de Skinner (comportamento) e recebe água (reforço); desliga-se o bebedouro da caixa: o ratinho pressiona a barra e não recebe mais a água (suspensão do reforço: extinção). Por quanto tempo (ou quantas vezes) o ratinho continuará pressionando a barra? 

RESISTÊNCIA À EXTINÇÃO é  o tempo - ou o número de vezes - que um organismo continua emitido uma resposta (comportamento) após a suspensão do seu reforço. Quanto mais tempo continuar se comportando, maior a resistência a extinção do comportamento, e vice-versa.

MODELAGEM é uma técnica usada para se ensinar um comportamento novo por meio de reforço diferencial de aproximações sucessivas do comportamento-alvo. Exemplo: Pais e parentes reforçam o balbuciar de bebês, de onde surgem diferentes sequências de sons.


Fonte: livro Análise do Comportamento. Capítulo 3.

CONCEITO CONSEQUÊNCIA REFORÇADORA



REFORÇO POSITIVO E APRENDIZAGEM


sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Capítulo III - O Behaviorismo apresenta o comportamento simplesmente como um conjunto de respostas a estímulos, descrevendo a pessoa como um autômato, um robô, um fantoche ou uma máquina? Nádia Prazeres Pinheiro

É comum nós, analistas do comportamento, escutarmos que a nossa teoria “reduz o homem a uma máquina'’, que afirmamos que todo e qualquer comportamento obedece à lógica estimulo-resposta - o que seria uma afronta aos seres humanos, animais superiores e racionais, dotados de vontade própria e de livre arbítrio. 



“Descartes deu um passo importante ao sugerir que parte da espontaneidade das criaturas vivas era apenas aparente e, que, às vezes, o comportamento podia ser iniciado por uma ação externa” (Skinner, 1998, p.51).







E Skinner vai além... Para responder a esta critica, devemos primeiramente ter claro o que são comportamento reflexo e comportamento operante

No caso do reflexo, os estímulos seriam algum tipo de mudança externa que causaria estimulação orgânica que, por sua vez. provocaria uma resposta orgânica

Suas características são: ser inconsciente, ou seja. ocorre mesmo quando o sujeito não está percebendo; involuntário, ocorre independente da vontade do organismo, não há como controlá-lo ou evitar sua ocorrência por vontade própria e; pode ser previsto com grande precisão, considerando que, na presença do estímulo, a resposta sempre ocorrerá (Skinner, 1998)

São exemplos de comportamento reflexo, os casos da contração pupilar frente a um estimulo luminoso, da salivação frente a um prato de comida aparentemente apetitoso e do piscar quando algum objeto é passado na frente de nosso rosto ou olhos

"Os reflexos são produtos da seleção natural. Invariavelmente parecem estar envolvidos na manutenção da saúde e na promoção da sobrevivência e da reprodução” (Baum. 1999. p. 72). 

Os padrões de comportamentos reflexos são comuns a todos os membros de uma espécie e. por isso. podemos dizer que estão relacionados com a filogênese. Tais padrões começaram a se modificar e a evoluir na medida em que o organismo precisava se adaptar às mudanças do meio, já que. “só o processo evolutivo pode fornecer um mecanismo, pelo qual o indivíduo possa adquirir respostas a configurações particulares de um dado ambiente’' (Skinner, 1998. p. 60). 

Ora, se o ambiente no qual os organismos estavam inseridos sofreram modificações, eles, os organismos, também precisariam evoluir para permitir a sua sobrevivência e a manutenção de sua espécie. 

Os camaleões, por exemplo, quando em contato com um estimulo de perigo, mudam sua cor para se esconderem e serem confundidos com o seu esconderijo. Se isso não ocorresse, se esse reflexo não estivesse presente nesse animal, ele seria presa fácil e sua espécie poderia estar extinta. 

Da mesma maneira nós, os seres humanos, quando lacrimejamos para expulsar uma partícula de poeira é uma questão de sobrevivência para manutenção da espécie (Skinner, 1998). 

Se todos os nossos comportamentos se restringissem aos reflexos, poderíamos ser comparados às máquinas, pois nossos comportamentos sempre corresponderiam à relação causa e efeito. Entretanto, como afirma Skinner (1998). “A maior parte do comportamento do organismo intacto não está sob esse tipo de controle primário” (p. 54); a maioria dos nossos comportamentos são operantes. 

O comportamento denominado operante é aquele que opera sobre o meio, produzindo modificações no ambiente físico (natural) e no ambiente social (homens) (Skinner, 1998). Este comportamento é explicado pelo paradigma da tríplice contingência:

 S* - R - Sr. 
  • Onde Sd é o estimulo discriminativo.
  • R é a resposta 
  • Sr é o estímulo reforçador. 

Explicando cada um: Sd é um estimulo que sinaliza a possibilidade de reforçamento. Distinguindo-se do estimulo antecedente do reflexo, ele “não elicia a resposta, simplesmente altera sua probabilidade de ocorrência” (Skinner, 1998. p. 122). Com isso, pode-se concluir o porquê de não falarmos de certezas, e sim de probabilidades em comportamentos operantes, e que, portanto, não somos seres autômatos pois as respostas automáticas não são maioria em nosso repertório comportamental

Assim, podemos alterar a probabilidade de emissão de uma resposta modificando o estimulo discriminativo com o qual o organismo entrará em contato (Skinner, 1998). R é a resposta, a ação em si mesma. E S' é um estimulo conseqüente à resposta que determina a futura freqüência de emissão da mesma (Skinner, 1998). 

Quando a conseqüência é um Sr. a resposta tem uma maior probabilidade de voltar a acontecer, se não for reforçadora, ela (a resposta) terá sua probabilidade de ocorrência diminuída. Deste modo. o reforço cumpre a função de fortalecer uma determinada resposta e aumentar a eficiência da mesma: e é por isso que dizemos que o comportamento é selecionado pelas suas conseqüências, elas "podem retroagir sobre o organismo” (Skinner. 1998, p. 65).

 Ilustrando o paradigma operante. podemos recorrer ao comportamento de lavar as mãos quando estas estão sujas. Neste caso o Sc é "as mãos sujas”, R é “lavar as mãos” e Sr é “ter as mãos limpas”. 

Assim, toda vez que estiver frente ao estímulo mãos sujas, a probabilidade de lavar as mãos é maior do que a de qualquer outra resposta, visto que tal resposta foi anteriormente reforçada. 

“A história de reforçamento é que determina os efeitos de um evento atual, as conseqüências recebidas no passado alteraram o organismo de forma a ele agir de uma dada maneira frente a um evento” (Micbeletto, 1997, p. 127).

A esta história que é construída ao longo da vida dos indivíduos e que consiste, na verdade, na aquisição de repertórios comportamentais por meio [principalmente] do condicionamento operante chamamos ontogênese.

Desta forma, a ontogênese diz respeito à história particular de cada indivíduo, na medida em que todo homem interage com o ambiente de maneira singular. Sendo o comportamento operante uma parte da ontogênese, talvez a maior parte dela (Costa, 1996, p. 7-8).

Desde esse nível de determinação podemos perceber o quão único é o ser humano (tema que será abordado no capitulo XIV), ninguém vai ter os mesmos comportamentos (mesmo que sejam topograficamente semelhantes, não o serão funcionalmente) de outra pessoa. 

Haverá sempre algo de novo,o que dará a dimensão de que não podemos ser máquinas - estas são pré-programadas: nós não. estamos em constantes mudanças (cf. Micheletto. 1997). 

Partindo da própria definição de operante como o comportamento que é selecionado por suas conseqüências, já é possível refutar a crítica de que a concepção de comportamento adotada por Skinner obedece a uma lógica mecanicista. Afinal, não se trata de uma análise causal, na qual se busca uma causa para um efeito. 

Nas palavras de Skinner (1998), os "termos 'causa' e 'efeito': já não são usados em larga escala na ciência. Uma “causa" vem a ser “uma mudança em uma variável independente" e um “efeito" uma “mudança em uma variável dependente''. A antiga “relação de causa c efeito" transforma-se em uma "relação funcional". Os novos termos não sugerem como uma causa produz o seu efeito, meramente afirmam que eventos diferentes tendem a ocorrer ao mesmo tempo, em uma certa ordem (p. 24).

Uma análise funcional avalia contingências e estas são definidas como “relações de dependência entre eventos. Elas prescrevem a probabilidade de ocorrência de um dado evento em função da ocorrência de um outro evento” (Barros, 19%. p. 8). Retomando o modelo de seleção por conseqüência, como foi visto no capitulo anterior, o comportamento humano também é controlado pela cultura, como enfatiza Skinner (2002),

Podemos atribuir uma pequena parte do comportamento humano (...) à seleção natural e à evolução das espécies, uma parte do comportamento humano deve ser atribuída a contingências de reforçamento, especialmente às contingências sociais verdadeiramente complexas a que chamamos cultura (p. 41).

E complementa: o homem “se encontra controlado por seu ambiente, porém não devemos esquecer que é um ambiente, construido em grande parte pelo próprio homem” (Skinner, 1983a. p. 160). Isso quer dizer que o homem é controlado pelo próprio homem: é a sociedade, a nossa própria comunidade, que seleciona os comportamentos que devem ser emitidos

E mais. como disse Micheletto (1997). tenho meu comportamento reforçado pelo sucesso do meu próprio comportamento, somos “agentes controlados pelo efeito de nossa própria ação” (p. 118). Logo, sou fantoche de mim mesmo? 

Com certeza não! Nem fantoche do ambiente, nem fantoche de si mesmo, pois a noção de comportamento implica relação. Todos os comportamentos têm uma história. A história de reforçamento de cada um de nós. as nossas historias de vida, inseridos em uma determinada sociedade. E é dependendo de como e quando os indivíduos desta sociedade nos oferecem reforçadores ou punidores que poderemos nos comportar em um determinado contexto. Dizer que o comportamento humano é controlado por eventos externos não significa dizer que o homem é um autômato, um robô. um fantoche ou uma máquina.