Mostrando postagens com marcador Espírito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espírito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de março de 2022

Recurso de apresentação da Gestalt-terapia






  • Os cards têm por objetivo, apresentar ao cliente a abordagem que o terapeuta vai trabalhar.
  • Importante atentar para a fase do desenvolvimento humano que o cliente está vivendo, para ao explicar a os aspectos da integralidade do ser, correlacionar com aspectos relevantes de cada fase, adolescente, adulto ou idoso, de modo que faça sentido para o cliente.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Psicologia Humanista - Seminário.


1.    SURGIMENTO DA PSCOLOGIA HUMANISTA

             Psicologia Humanista surgiu na década de 50 e ganhou força nos anos 60 e 70, como uma reação às ideias de análise apenas do comportamento, como psicologia mecanicista defendida pelo Behaviorismo e do enfoque no inconsciente e seu determinismo, defendido pela Psicanálise, através da negatividade freudiana.
               Os psicólogos humanistas se unem por um objetivo comum: humanizar a psicologia.  Isto é, fazer da Psicologia o estudo daquilo “que significa estar vivo como ser humano”. Estes, voltaram sua atenção para o modo como as pessoas, supostamente “saudáveis” se esforçam para obter autodeterminação e autorrealização.
               A grande divergência com o Behaviorismo é que o Humanismo não aceita a ideia do ser humano como máquina ou animal, sujeitos aos processos de condicionamento. Já em relação à Psicanálise, a reação foi à ênfase dada no inconsciente, nas questões biológicas e eventos passados, nas neuroses, psicoses e na divisão do seu humano em compartimentos. A perspectiva humanista encara a personalidade com um foco no potencial para o crescimento pessoal saudável.
               De forte influência existencial e fenomenológica, a Psicologia Humanista busca conhecer o ser humano, estudando as pessoas por meio de suas experiências e sentimentos por elas mesmo, relatados, tentando humanizar seu aparelho psíquico, contrariando assim, a visão do homem como um ser condicionado pelo mundo externo. No existencialismo, o ser humano é visto como ponto de partida dos processos de reflexão e na fenomenologia, esse ser humano tem consciência do mundo que o cerca, dos fenômenos e da sua experiência consciente.
              A maior contribuição dessa nova linha psicológica é a da experiência consciente, a crença na integralidade entre a natureza e a conduta do ser humano, no livre arbítrio, espontaneidade e poder criativo do indivíduo.
              A realidade, para a Psicologia Humanista, deve ser exposta à temporalidade, deve ser fluída e não estática, permitindo que ao indivíduo a perspectiva de sua totalidade, desmistificando a ideia de uma realidade pura, confrontando-a com outras realidades. A integração entre o indivíduo e o mundo, permite que ele sinta a realidade presente, libertando-se das exigências do passado e do futuro.
              As raízes da psicologia humanista estão na corrente filosófica do existencialismo europeu, com autores tais como:
              Jean Paul-Sartre: “O homem nasce livre, responsável e sem desculpas”.
              Jean Jacques Rousseau: “O homem é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”.
               Erich Fromm: “Se eu sou o que tenho e perco que tenho, quem sou eu, então?”
               Viktor Frankl: “O homem se realiza na mesma medida em que se compromete com o significado da sua medida”.
                

2. TEÓRICOS HUMANISTAS



Os dois grandes teóricos da Psicologia Humanista foram Abraham Maslow e Carl Rogers, e ambos propuseram uma perspectiva de uma terceira força com ênfase no potencial humano.

2.1. ABRAHAM MASLOW

               Um dos principais teóricos da Psicologia Humanista foi Abraham Maslow (1908-1970), americano, considerado o pai espiritual do movimento humanista, acreditava na tendência individual da pessoa para se tornar auto realizadora, sendo este o nível mais alto da existência humana. Maslow criou uma escala de necessidades a serem satisfeitas e, a cada conquista, nova necessidade se apresentava. Isso faria com que o indivíduo fosse buscando sua autorrealização, pelas sucessivas necessidades satisfeitas, conforme gráfico abaixo:


                  Dentro dessa perspectiva, Maslow mostra que, se nossas necessidades fisiológicas são atendidas, ficamos preocupados com segurança pessoal; se atingimos um senso de segurança, buscamos amar, ser amado e amarmos a nós mesmos; quando amamos, buscamos a autoestima; com autoestima buscamos a autorrealização, que seria o processo de realizar nosso potencial; e, por fim, buscamos a autotranscedência, que significa propósito e comunhão para além do eu.
                  Maslow desenvolveu suas ideias a partir do estudo de pessoas saudáveis e criativas, ao invés de estudas casos clínicos complicados. Para definir a autorrealização estudou pessoas aparentemente com uma vida de sucesso, por terem uma vida rica e produtiva. Observou que essas pessoas tinham características em comum, tais como: aceitavam-se tal como eram; tinham consciência de si; eram francas e espontâneas, afetuosas e solícitas e não se deixavam afetar pela opinião alheia. Seguras por saberem quem eram, seus interesses eram centrados nos problemas, e não em si mesmas. Direcionavam suas energias em determinadas tarefas, tidas como missão de vida. A maioria tinha poucos relacionamentos íntimos ao invés de muitos relacionamentos superficiais. Maslow retrata que muitas foram movidas por grandes experiências pessoais ou espirituais que vão além da consciência comum.
                   Para Maslow essas características eram consideradas qualidades adultas maduras, qualidades de pessoas que aprenderam o suficiente sobre a vida, para serem compassivas, terem superado sentimentos confusos em relação aos seus pais, descobriram sua vocação, por terem coragem de serem impopulares, e não se envergonharam de serem abertamente virtuosas.
               A partir de experiências com estudantes universitários, Maslow concluiu que aqueles propensos a se tornarem adultos autorrealizados eram simpáticos, solícitos, “particularmente afetuosos com os mais idosos, que merecem seu afeto”, e “preocupados com a crueldade, a malvadeza e o espírito de gangue encontrados com tanta frequência entre as pessoas jovens”.
          
2.2. CARL ROGERS

            Outro grande teórico da Psicologia Humanista foi Carl Rogers (1902-1987), americano, que baseou seu trabalho no indivíduo. Ele estava de acordo com muitos dos pensamentos de Maslow. Acreditava que as pessoas são basicamente boas e dotadas de tendências para a autorrealização. A não ser que esta, esteja em um ambiente, que iniba o seu crescimento. Rogers dizia que cada um de nós é como um broto pequenino, pronto para o crescimento e para a realização.

               Rogers acreditava que um clima favorável ao crescimento exigia três condições:
              Autenticidade: as pessoas nutrem o crescimento com autenticidade, sendo francas em seus sentimentos, retirando as máscaras, e sendo transparentes e reveladoras.
             Aceitação: ele chamou de aceitação positiva incondicional, atitude de benevolência, de autovalorização, mesmo reconhecendo em si, defeitos. Funciona como um alívio profundo deixar os disfarces caírem, confessar nossos piores sentimentos e descobrir que ainda somos aceitos, o que nos possibilita viver em uma relação matrimonial, em família unida e amizade íntima, sem a necessidade de se explicar a todo instante. É ser livre para ser espontâneo sem correr o risco de perder a estima pelo outro.
             Empatia: ao compartilhar e espelhar nossos sentimentos e refletir nossos significados. ”Raramente ouvimos com compreensão sincera e verdadeira empatia”, segundo Rogers. Porém, ele considera ouvir, nessa condição especial, uma das forças mais potentes para a mudança.
              Para Rogers, autenticidade, aceitação e empatia são os efetivos meios que possibilitam as pessoas crescerem como vigorosos carvalhos, pois “na medida em que são aceitas e valorizadas, as pessoas tendem a desenvolver uma atitude mais favorável em relação a si mesmas” (Rogers, 1980, p.116)
             Ele trabalhou com um conceito semelhante ao de Maslow, que é a tendência inata de cada pessoa tem de atualizar suas capacidades e potenciais.
             Defendeu, também, a ideia de autoconceito como característica principal da personalidade, bem como, um padrão organizado e consciente das características de cada um, desde a infância que, à medida que novas experiências surgem, esses conceitos podem ser substituídos ou reforçados. Para ele, a capacidade do indivíduo de modificar consciente e racionalmente seus pensamentos e comportamentos, fornece a base para a formação de sua personalidade
           O autoconceito diz respeito à resposta que a pessoa tem de si para a seguinte pergunta: “Quem sou eu? Para Carl Rogers, se o autoconceito for positivo, a pessoa tende a agir e a ver o mundo positivamente. Em contrapartida, se o autoconceito for negativo, a pessoa se sente infeliz e insatisfeita. Para Rogers, o objetivo mais valioso para terapeutas, professores, pais e amigos, é ajudar os outros a se conhecer, a se aceitar, e a ser verdadeiro consigo mesmo.

Para Rogers, os indivíduos bem ajustados psicologicamente têm autoconceitos realistas e a angústia psicológica é advinda da desarmonia entre o autoconceito real (o que se é de fato – self real) e o ideal para si (o que se deseja ser – self ideal). Dentro dessa perspectiva de self real e self ideal, para Rogers, quando ambos são muito parecidos, o outoconceito é positivo.

Ele acreditava que o sujeito deveria dar a direção e o conteúdo do tratamento psicológico, por ter ele suficientes recursos de autoentendimento para mudar seus conceitos. A terapia centrada na pessoa e não em teorias, nasceu dessa ideia.

3.    PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Do ponto de vista da psicologia humanista, pode-se falar de dois grandes pressupostos teóricos que embasam as diversas abordagens: o pressuposto determinista e o pressuposto da autonomia.

3.1.        PRESSUPOSTO DETERMINISTA

No pressuposto determinista, o ser humano é pensado como algum tipo de mecanismo. Tudo que ele faz, assim como tudo que lhe acontece, tem uma causa determinante. A arte do atendimento consiste em descobrir essa causa e intervir no sentido de modificá-la ou substituí-la por outra.

As causas determinantes das condutas humanas podem ser internas (além de uma energia interna, compreendem-se as cognições, representações sociais, motivações inconscientes, resíduos da história passada, por exemplo, que dão a essa energia sua direção); ou externas (estímulos do ambiente físico ou social, isoladamente ou em configurações complexas, que acionam e dão direção a uma fonte de movimento) (Baum, 1999).

Dentro deste pressuposto do determinismo psicológico, o atendimento, para que seja eficaz, exige um olhar analítico da situação. Este olhar configura-se como um diagnóstico. A partir dele, uma estratégia de intervenção é montada para dirigir a ação terapêutica para os fins visados: uma troca de causas determinantes.

3.2.        PESSUPOSTO DA AUTONOMIA

O pressuposto humanista da autonomia é diferente. Nele o ser humano não é visto como simples resultado de múltiplas influências, mas como o iniciador de coisas novas.

A pessoa não é vista principalmente como efeito de causas anteriores modificáveis, mas como um ser desafiado pela vida e chamado a responder criativamente (Merleau-Ponty, 1996; Frankl, 1989). Isso quer dizer que se supõe que o ser humano tenha algum poder sobre as determinações que o afetam.

O trabalho psicológico consiste fundamentalmente em oferecer um contexto dialógico no qual a liberação desse poder seja promovida. Aposta-se na autonomia crescente da pessoa e na fecundidade de uma relação humana honesta para promover essa autonomia. A autonomia é entendida como a capacidade que o ser humano tem de orientar sua própria vida de forma positiva para si mesmo e para a coletividade. Nessa perspectiva, o atendimento não se baseia em um diagnóstico, mas na afirmação de uma tendência inata e criativa ao crescimento, e não é concebido como uma intervenção direcionada a efeitos específicos, mas sim como uma relação libertadora dessa tendência na pessoa.

A qualidade dessa relação adquire importância capital, pois é a partir dela que a capacidade de ver claramente e de orientar a própria conduta por parte da pessoa que se relaciona com o psicólogo vai se estabelecendo.

A palavra “diagnóstico” ainda pode ser útil, mas agora com uma compreensão abrangente, que se constrói juntamente com o cliente e a serviço dele, ao longo do atendimento, e que inclui uma visão de seu modo de ser, da natureza da situação e também dos rumos que poderiam dar um sentido positivo à dinâmica da vida.


4. CARACTERÍSTICAS DA PSICOLOGIA HUMANISTA


- Fornece uma ampla perspectiva holística, ou seja, caracteriza-se por ver a pessoa como um todo, numa base global. Cada um dos aspectos possui a mesma relevância. Os pensamentos, o corpo, as emoções e o lado espiritual. Estes aspectos estão inter-relacionados e se confluem mutuamente. Eles são a principal via pela qual o indivíduo encontra a si mesmo.

- A existência humana ocorre em um contexto interpessoal, portanto, é muito importante e necessário o relacionamento com os outros, levando em conta o contexto que é produzido, para o desenvolvimento individual do ser humano.

- As pessoas possuem a capacidade de fazer as suas próprias escolhas, de responsabilizar-se e de proceder para um desenvolvimento e implantação do seu próprio potencial.

- Promove e facilita o desenvolvimento pessoal. O psicólogo serve como uma ferramenta para que a pessoa, através de recursos próprios, possa vir a compreender-se e desenvolver-se.

- As pessoas têm uma tendência inata de autorrealização. O ser humano pode confiar na sabedoria dessa parte do seu interior, já toda a cura está em suas próprias respostas. Isto precisa ser entendido, pois não é necessário controlar o ambiente ou controlar as próprias emoções suprimindo-as.

5. CRÍTICAS ENFRENTADAS PELA PERSPECTIVA HUMANISTA

A perspectiva humanista desencadeou uma série de críticas, nos seguintes aspectos:

Conceitos supostamente vagos e subjetivos, quando Maslow define pessoas autorrealizadas como francas, espontâneas, afetuosas, com autoaceitação e produtivas. Os críticos mostraram que, se o perfil do grupo de pessoas analisadas mudasse, provavelmente se obteriam outras características para a autorrealização.

Se opuseram a ideia de Rogers de que a punica pergunta que importa é “Estou vivendo de um modo que é profundamente gratificante para mim e que realmente me expressa? ” (Citado por Wallach & Wallach). Para os críticos, o individualismo incentivado pela psicologia humanista – confiar e agir de acordo com seus próprios sentimentos, ser verdadeiro consigo mesmo, satisfazer a si mesmo – pode levar à satisfação excessiva dos próprios desejos, ao egoísmo, e à erosão de restrições morais. Para compreender melhor a dimensão do individualismo incentivado, imagine você trabalhando num grupo de pessoas que se recusam a realizar qualquer tarefa que não seja satisfatória, ou que não expresse verdadeiramente a sua identidade.

Na contrapartida, os humanistas argumentaram que o primeiro passo para amar os outros, é na verdade, uma autoaceitação segura e não defensiva. De fato, pessoas que se sentem amadas e aceitas, pelo que são e não apenas pelas suas realizações, têm atitudes menos defensivas (Schimel et al., 2001).

Outra acusação feita a Psicologia humanista é que ela não leva em conta a realidade da nossa capacidade humana para o mal, na qual as pessoas são basicamente boas, tudo será resolvido.  A psicologia humanista , dizem os críticos, incentiva a esperança necessária, mas não o realismo igualmente necessário acerca do mal.



REFERÊNCIAS:

MYERS, D.G.; DEWALL, C.N. Psicologia. Rio de Janeiro: Editora “Gen” Grupo

Editorial Nacional, 2017. Pg. 470, 471 e 472 .

MACHADO, Geraldo Magela. Psicologia Humanista. Disponível em: < https://www.infoescola.com/psicologia/psicologia-humanista/ > Acesso: 6 de outubro de 2018.

MARTINS, M.A. Estudos de Psicologia. vol. 26, núm. 1, enero-marzo, 2009, pp. 93-100. Disponível em http://www.redalyc.org/pdf/3953/395335850010.pdf. Acessado em 15 de outubro de 2018.

BLOG A MENTE É MARAVILHOSA. O que é a Psicologia Humanista? Disponível em < https://amenteemaravilhosa.com.br/psicologia-humanista/ > Acesso em: 13 de outubro de 2018.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A Psicologia entre os Gregos- primórdios.



CAPÍTULO 2 – A EVOLUÇÃO DA CIÊNCIA PSICOLOGIA


PSICOLOGIA E HISTÓRIA
·       Compreender, em profundidade, algo que compõe o nosso mundo significa recuperar sua história.
·       Para compreender o presente, quem somos, é preciso recorrer ao passado, que conta nossa história, e ao futuro como perspectiva de realização. Logo, para compreender a diversidade com que a Psicologia apresenta hoje, é preciso recorrer à sua história.
·       A história da psicologia está ligada às exigências de conhecimento da humanidade e sua interação com o meio e as circunstancias de cada época.

A PSCIOLOGIA ENTRE GREGOS: OS PRIMÓRDIOS.

·       Termo Psicologia vem do grego Pysiqué(alma) e logos(razão)
o   Etimologicamente Psicologia significa estudo da alma.
·       700 a.C. – Antiguidade
·       PRÉ-SOCRÁTICOS:
o   Sua preocupação: definir o homem através de sua sensação e percepção.
o   Objeto de discussão: o mundo existe porque o homem o vê ou o homem vê o mundo que já existe?
o   Oposição entre Idealistas X Materialistas sobre o que forma o mundo:
§  Idealistas – a ideia forma o mundo.
§  Materialista – a matéria forma o mundo.

·       SÓCRATES ( 469-399 a.C)
o   Sua preocupação: saber o limite que separa o homem do animal.

o   Alma ou Espírito era concebida como a parte imaterial do ser humano (pensamentos, sentimentos, amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção).
o   Princípio da IrracionalidadeInstintos.
o   Principal característica humana era a razão, pois a razão permitia o homem sobrepor-se aos instintos, que seria a base da irracionalidade.

·       PLATÃO (427-347 a.C.) – discípulo de Sócrates.
o   Preocupação: queria definir um “lugar” para a razão, no próprio corpo, que segundo ele seria a “cabeça”, onde se encontra a alma do homem. A medula seria um elemento de ligação entre alma e corpo, pois ele concebia a alma separada do corpo.
o   Ao morrer, a matéria (corpo) desaparecia, mas a alma ficava livre para ocupar outro corpo.
o   Teoria Platônica – Postulou a Imortalidade da alma e a concebia separada do corpo.

·       ARISTÓTELES (384-322 a. C.) – discípulo de Platão.
o   Postulou que alma e corpo não podem ser dissociados.
o   Psyqué (alma) é tida como princípio ativo da vida. Tudo que cresce, se reproduz e se alimente tem psyqué ou alma, logo, vegetais, animais e o homem teriam alma.
§  Vegetais – tinham alma vegetativa com função de alimentação e reprodução.
§  Animais – tinham alma vegetativa e sensitiva (instinto) com função de percepção e movimento.
§  Homem – tinham alma vegetativa, sensitiva e racional com função pensante.

o   Teoria Aristotélica – Postulou a mortalidade da alma e sua relação de pertencimento ao corpo.
REFERÊNCIAS
BOCK, A.M.B.; FURTADO, O.;TEIXEIRA, M.L.T. R. Psicologias, uma introdução ao estudo da psicologia: 13. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1999. Capítulo 2-A evolução da ciência psicologia

domingo, 26 de agosto de 2018

IDEIAS PRINCIPAIS DE COMTE

Auguste Comte nasceu em Montpellier, França, a 19 de janeiro de 1798, filho de um fiscal de impostos. Suas relações com a família foram sempre tempestuosas e contêm elementos explicativos do desenvolvimento de sua vida e talvez até mesmo de certas orientações dadas às suas obras, sobretudo em seus últimos anos. Frequentemente, Comte acusava os familiares (à exceção de um irmão) de avareza, culpando-os por sua precária situação econômica. O pai e a irmã, ambos de saúde muito frágil, viviam reclamando maior participação de Auguste em seus problemas. A mãe apegou-se a ele de forma extremada, solicitando sua atenção “da mesma maneira que um mendigo implora um pedaço de pão” para sobreviver, como diz ela em carta ao filho já adulto. Tão complexos laços familiares foram afinal rompidos por Comte, mas deixaram-lhe marcas profundas. 

Com a idade de dezesseis anos, em 1814, Comte ingressou na Escola Politécnica de Paris, fato que teria significativa influência na orientação posterior de seu pensamento. Em carta de 1842 a John Stuart Mill (1806-1873), Comte fala da Politécnica como a primeira comunidade verdadeiramente científica, que deveria servir como modelo de toda educação superior. A Escola Politécnica tinha sido fundada em 1794, como fruto da Revolução Francesa e do desenvolvimento da ciência e da técnica, resultante da Revolução Industrial. Embora permanecesse por apenas dois anos nessa escola, Comte ali recebeu a influência do trabalho intelectual de cientistas como o físico Sadi Carnot (1796-1832), o A matemático Lagrange (1736-1813) e o astrônomo Pierre Simon de Laplace (1749-1827). Especialmente importante foi a influência exercida pela Mecânica Analítica de Lagrange: nela Comte teria se inspirado para vir a abordar os princípios de cada ciência segundo uma perspectiva histórica.  Em 1816, a onda reacionária que se apoderou de toda a Europa, depois da derrota de Napoleão e da Santa Aliança, repercutiu na Escola Politécnica. Os adeptos da restauração da Casa Real dos Bourbon conseguiram o fechamento temporário da Escola, acusando-a de jacobinismo. 

Comte deixou a Politécnica e, apesar dos apelos insistentes da família, resolveu continuar em Paris. Nesse período sofreu as influências dos chamados “ideólogos”: Destutt de Tracy (1754-1836), Cabanis (1757-1808) e Volney (1757-1820). Leu também os teóricos da economia política, como Adam Smith (1723-1790) e Jean-Baptiste Say (1767-1832), filósofos e historiadores como David Hume (1711-1776) e William Robertson (1721-1793). 

O fator mais decisivo para sua formação foi, porém, o estudo do Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, de Condorcet (1743-1794), ao qual se referiria, mais tarde, como “meu imediato predecessor”. A obra de Condorcet traça um quadro do desenvolvimento da humanidade, no qual os descobrimentos e invenções da ciência e da tecnologia desempenham papel preponderante, fazendo o homem caminhar para uma era em que a organização social e política seria produto das luzes da razão. Essa ideia tornar-se-ia um dos pontos fundamentais da filosofia de Comte.

Os três temas básicos 

O núcleo da filosofia de Comte radica na ideia de que:

A sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem. 

Comte achava que antes de uma reforma das instituições, seria necessário fornecer aos homens novos hábitos de pensar de acordo com o estado das ciências de seu tempo. 

Por essa razão, o sistema comteano estruturou-se em torno de três temas básicos.


  1. Em primeiro lugar, uma filosofia da história com o objetivo de mostrar as razões pelas quais uma certa maneira de pensar (chamada por ele filosofia positiva ou pensamento positivo) deve imperar entre os homens. 
  2. Em segundo lugar, uma fundamentação e classificação das ciências baseadas na filosofia positiva.
  3. Finalmente, uma sociologia que, determinando a estrutura e os processos de modificação da sociedade, permitisse a reforma prática das instituições. A esse sistema deve-se acrescentar a forma religiosa assumida pelo plano de renovação social, proposto por Comte nos seus últimos anos de vida. 
O progresso do espírito

Para Comte a filosofia da história pode ser sintetizada na sua célebre lei dos três estados. 

Todas as CIÊNCIAS e o ESPÍRITO HUMANO como um todo desenvolvem-se através de três fases distintas: a teológica, a metafísica e a positiva. 

 COMTE E O  ESTADO TEOLÓGICO
  • Poucas observações dos fenômenos e, por isso, a imaginação desempenha papel de primeiro plano. 
  • Diante da DIVERSIDADE DA NATUREZA, o homem só consegue explicá-la mediante a crença na intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. 
  • O mundo torna-se compreensível somente através das ideias de deuses e espíritos. 
  • A MENTALIDADE TEOLÓGICA visa a um tipo de compreensão absoluta; o homem, nesse estágio de desenvolvimento, acredita ter posse absoluta do conhecimento e desempenha relevante papel de COESÃO SOCIAL, fundamentando a VIDA MORAL.
  • Confiavam em PODERES IMUTÁVEIS, fundados na AUTORIDADE
  • Divide o estado teológico em três períodos sucessivos: 
FETICHISMO (Uma vida espiritual, semelhante à do homem, é atribuída aos seres naturais),
POLITEÍSMO (O politeísmo esvazia os seres naturais de suas vidas anímicas — tal como concebidos no estágio anterior — e atribui a animação desses seres não a si mesmos, mas a outros seres, invisíveis e habitantes de um mundo superior.)
MONOTEÍSMO (a distância entre os seres e seus princípios explicativos aumenta ainda mais; o homem, nesse estágio, reúne todas as divindades em uma só.
  • A fase teológica monoteísta representaria, no desenvolvimento do espírito humano, uma etapa de transição para o estado metafísico
  • O espírito humano, inicialmente, concebe “forças” para explicar os diferentes grupos de fenômenos, em substituição às divindades da fase teológica. Fala-se então de uma “força física”, uma “força química”, uma “força vital”
                          COMTE E O  ESTADO METAFÍSICO

Segundo Comte, os pontos de contato entre teológicos e metafísicos são:
  • Ambos tendem à procura de soluções absolutas para os problemas do homem: a metafísica, tanto quanto a teologia, procura explicar:  a “natureza íntima” das coisas, sua origem e destino últimos, bem como a maneira pela qual são produzidas
DIFERENÇA ENTRE O ESTADO TEOLÓGICO E METAFÍSICO
  •  reside no fato de a METAFÍSICA colocar o ABSTRATO no lugar do CONCRETO e a ARGUMENTAÇÃO no lugar da IMAGINAÇÃO. 
  • o estado metafísico se caracterizaria fundamentalmente pela dissolução do teológico. A argumentação, penetrando nos domínios das ideias teológicas, traria à luz suas contradições inerentes e substituiria a vontade divina por “ideias” ou “forças”.
  • A metafísica destruiria a ideia teológica de subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural.
  • Na esfera política, o espírito metafísico corresponderia a uma substituição dos reis pelos juristas; supondo-se a sociedade como originária de um contrato, tende-se a basear o Estado na soberania do povo. 
O pensamento positivo

 O estado positivo caracteriza-se pela subordinação da imaginação e da argumentação à observação

Comte não defende um empirismo puro, ou seja, a redução de todo conhecimento à apreensão exclusiva de fatos isolados. 

  • A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos (procedimento teológico ou metafísico) e torna-se pesquisa de suas leis, entendidos como relações constantes entre fenômenos observáveis
  • Quando procura conhecer fenômenos psicológicos, o espírito positivo deve visar às relações imutáveis presentes neles — c
  • A filosofia positiva, ao contrário dos estados teológico e metafísico, considera impossível a redução dos fenômenos naturais a um só princípio (Deus, natureza ou outro equivalente). 
  • A experiência nunca mostra mais do que uma limitada interconexão entre determinados fenômenos. 
  • Cada ciência ocupa-se apenas com certo grupo de fenômenos, irredutíveis uns aos outros. A unidade que o conhecimento pode alcançar seria, assim, inteiramente subjetiva, radicando no fato de empregar-se um mesmo método, seja qual for o campo em questão: uma idêntica metodologia produz convergência e homogeneidade de teorias. Essa unidade do conhecimento não é apenas individual, mas também coletiva; isso faz da filosofia positiva o fundamento intelectual da fraternidade entre os homens, possibilitando a vida prática em comum. A união entre a teoria e a prática seria muito mais íntima no estado positivo do que nos anteriores, pois o conhecimento das relações constantes entre os fenômenos torna possível determinar seu futuro desenvolvimento. O conhecimento positivo caracteriza-se pela previsibilidade: “ver para prever” é o lema da ciência positiva. A previsibilidade científica permite o desenvolvimento da técnica e, assim, o estado positivo corresponde à indústria, no sentido de exploração da natureza pelo homem. Em suma, o espírito positivo, segundo Comte, instaura as ciências como investigação do real, do certo e indubitável, do precisamente determinado e do útil. Nos domínios do social e do político, o estágio positivo do espírito humano marcaria a passagem do poder espiritual para as mãos dos sábios e cientistas e do poder material para o controle dos industriais. Do simples ao complexo A classificação das ciências — segundo tema básico da filosofia comteana — vincula-se à filosofia da história. Ao traçar o mapa do desenvolvimento histórico do espírito, em sua caminhada para a apreensão da realidade, Comte mostra que a evolução de cada ciência obedece à periodização dos três estados, mas que essa periodização não se faz ao mesmo tempo em todos os domínios.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A ALMA COLETIVA - do Livro Psicologia das Massas e análise do eu - Sigmond Freud



Le  Bom mostra que a Psicologia não cumpriu cabalmente a sua tarefa e nem conseguiu esclarecer todos os nexos, e ainda que tivesse atingido esses objetivos, surgiria sempre um PROBLEMA NOVO, NÃO RESOLVIDO, já que a PSICOLOGIA procura nas AÇÕES e nas RELAÇÕES COM OS MAIS PRÓXIMOS os seguintes aspectos: As DISPOSIÇÕES, os IMPULSOS INSTINTUAIS, os MOTIVOS e as INTENÇÕES do Indivíduo.

Esse FATO NOVO, SURPREENDENDE que surge a partir do alinhamento do indivíduo com a multidão, leva o mesmo a adquiri a característica de MASSA PSICOLÓGICA, condição em que o indivíduo PENSA, SENTE E AGE DE MODO COMPLETAMENTE distinto do esperado.


Ele faz então três perguntas a serem refletidas:

1.     O que é então uma “massa”?
2.     De que maneira adquire ela a capacidade de influir tão decisivamente na vida psíquica do indivíduo?
3.     Em que consiste a modificação psíquica que ela impõe ao indivíduo?

A psicologia teórica das massas, oriunda da OBSERVAÇÃO DA REAÇÃO ALTERADA DO INDIVÍDUO, oferece material para respondê-las à partir da terceira pergunta.

1º OBSERVAR A REAÇÃO ALTERADA DO INDIVÍDUO
2º DESCREVER AS REAÇÕES A SEREM EXPLCIADAS
3º EXPLICAR AS REAÇÕES

Le Bon diz : “O fato mais singular, numa massa psicológica, é o seguinte:

Quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, sejam semelhantes ou dessemelhantes o seu tipo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o simples fato de se terem transformado em massa, os torna possuidores de uma espécie de alma coletiva.

Esta alma os faz sentir, pensar e agir de uma forma bem diferente da que cada um sentiria, pensaria e agiria isoladamente.

Certas ideias, certos sentimentos aparecem ou se transformam em atos apenas nos indivíduos em massa.

A MASSA PSICOLÓGICA é um ser provisório, composto de elementos heterogêneos que por um instante se soldaram.

Observações feitas por FREUD sobre a exposição de Le Bom:
Se os INDIVÍDUOS DA MASSA estão ligados numa unidade, tem de haver algo que os une entre si, e este meio de ligação poderia ser justamente o que é característico da massa. Le Bon  lida apenas com a modificação do indivíduo na massa e a descreve em termos que harmonizam bastante com os pressupostos básicos de nossa psicologia profunda.

“Constata-se facilmente o quanto o indivíduo na massa difere do indivíduo isolado; mas as causas de tal diferença.  Para descobri-las é preciso recorrer à PSICOLOGIA MODERNA que diz:

Que não é apenas na vida orgânica, mas também no funcionamento da inteligência que os fenômenos inconscientes têm papel preponderante.

A VIDA CONSCIENTE DO ESPÍRITO não representa senão uma pequenina parte, comparada à sua vida inconsciente e que apenas um número pequeno dos móveis inconscientes que conduz o indivíduo é descoberto.

Nossos atos conscientes derivam de um substrato inconsciente com resíduos ancestrais que constituem a alma da raça.

Por trás das CAUSAS CONFESSAS DE NOSSOS ATOS, há sem dúvida CAUSAS SECRETAS QUE NÃO CONFESSAMOS, mas por trás dessas causas secretas HÁ OUTRAS, BEM MAIS SECRETAS ainda, pois NÓS MESMOS A IGNORAMOS.

A maioria de nossos atos cotidianos é resultado de móveis ocultos que nos escapam.

Na massa, acredita Le Bom:

1.     as aquisições próprias dos indivíduos se desvanecem, e com isso desaparece sua particularidade.

2.     O inconsciente próprio da raça ressalta, o heterogêneo submerge no homogêneo.

3.     A SUPER ESTRUTURA PSÍQUICA, que se desenvolveu de modo tão diverso nos indivíduos, é desmontada, debilitada, e o fundamento inconsciente comum a todos é posto a nu (torna-se operante).

Dessa maneira se produziria um caráter mediano dos indivíduos da massa.

Mas conforme Le Bon BUSCA AS RAZÕES para o SURGIMENTO DE CARACTERÍSTICAS NOVAS  em três fatores:

1.     “O primeiro é que o indivíduo na massa adquire, pelo simples fato do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, estando só, ele manteria sob controle. E cederá com tanto mais facilidade a eles, porque, sendo a massa anônima, e por conseguinte irresponsável, desaparece por completo o sentimento de responsabilidade que sempre retém os indivíduos.” Não precisamos, em nosso ponto de vista, atribuir muito valor à emergência de novas características. Basta-nos dizer que na massa o indivíduo está sujeito a condições que lhe permitem se livrar das repressões dos seus impulsos instintivos inconscientes. As CARACTERÍSTICAS APARENTEMENTE NOVAS, que ele então apresenta, são justamente AS MANIFESTAÇÕES DESSE INCONSCIENTE, no qual se acha contido, em predisposição, tudo de mau da alma humana. Não é difícil compreendermos o esvaecer da consciência ou do sentimento de responsabilidade nestas circunstâncias. Há muito afirmamos que o cerne da chamada CONSCIÊNCIA MORAL consiste no “MEDO SOCIAL”.

2.     Uma segunda causa, o CONTÁGIO MENTAL, intervém igualmente para determinar a manifestação de características especiais nas massas e a sua orientação. Para explicar o contágio é preciso relacionar aos fenômenos de ordem hipnótica que adiante estudaremos. 
    
    Numa massa, todo sentimento, todo ato é contagioso, e isso a ponto de o indivíduo sacrificar facilmente o seu interesse pessoal ao interesse coletivo. Eis uma aptidão contrária à sua natureza, de que o homem só se torna capaz enquanto parte de uma massa” . Sobre esta última frase vamos fundamentar, mais adiante, uma importante conjectura.

3.     “Uma terceira causa, de longe a mais importante, determina nos indivíduos da massa características especiais, às vezes bastante contrárias às do indivíduo isolado. Refiro-me à SUGESTIONABILIDADE, de que o contágio mencionado acima é apenas um efeito. 

  “Para compreender esse fenômeno, é preciso ter em mente algumas descobertas recentes da fisiologia. Sabemos hoje que um indivíduo pode ser posto, num estado tal que, tendo perdido sua personalidade consciente, ele obedece a todas as sugestões do operador que a fez perdê-la, e comete os atos mais contrários a seu caráter e a seu costume

  Ora, observações atentas parecem provar que o indivíduo, mergulhado há algum tempo no seio de uma massa ativa, logo cai — em consequência de eflúvios que dela emanam, ou por outra causa ainda ignorada — num estado particular, aproximando-se muito do estado de fascinação do hipnotizado nas mãos do hipnotizador […].   

   A personalidade consciente se foi, a vontade e o discernimento sumiram. Sentimentos e pensamentos são então orientados no sentido determinado pelo hipnotizador. “Tal é, aproximadamente, o estado de um indivíduo que participa de uma massa. Ele não é mais consciente de seus atosNele, como no hipnotizado, enquanto certas faculdades são destruídas, outras podem ser levadas a um estado de exaltação extrema. 

  A influência de uma sugestão o levará, com irresistível impetuosidade, à realização de certos atos. Impetuosidade ainda mais irresistível nas massas que no sujeito hipnotizado, pois a sugestão, sendo a mesma para todos os indivíduos, exacerba-se pela reciprocidade” Portanto as principais características do INDIVÍDUO DE MASSA são:

a.     Esvanecimento da personalidade consciente.
b.     Predominância da personalidade inconsciente
c.     Orientação por via de sugestão e de contágio dos sentimentos e das ideias num mesmo sentido.
d.     Tendência a transformar imediatamente em atos as ideias sugeridas.

Ele não é mais ele mesmo, mas um autômato cuja vontade se tornou impotente para guiá-lo.

Le Bon realmente designa o estado do indivíduo na massa como hipnótico, não se limita apenas a compará-lo com este. Freud não pretende contradizê-lo, mas somente destacar que as duas últimas causas da modificação do indivíduo na massa, o contágio e a maior sugestionabilidade, evidentemente não são do mesmo tipo, pois o contágio deve ser também uma manifestação da sugestionabilidade

De qualquer modo ele distingue esta INFLUÊNCIA FASCINADORA, deixada na penumbra, e o EFEITO CONTAGIOSO DOS INDIVÍDUOS ENTRE SI, que vem a fortalecer a sugestão original.

Eis ainda uma consideração importante para julgar o indivíduo da massa: “Portanto, pelo simples fato de pertencer a uma massa, o homem desce vários degraus na escala na civilização.

Isolado, ele era talvez um indivíduo cultivado, na massa é um instintivo, e em consequência um bárbaro. Tem a espontaneidade, a violência, a ferocidade, e também os entusiasmos e os heroísmos dos seres primitivos”

 Ele então se detém especialmente na diminuição da capacidade intelectual, experimentada pelo indivíduo que se dissolve na massa.

Deixemos agora o indivíduo e nos voltemos para a DESCRIÇÃO DA ALMA DE MASSA,tal como Le Bon a delineia.

 Nela não há traço algum que um psicanalista não consiga derivar e situar. O próprio Le Bon nos mostra o caminho, ao apontar a coincidência com a vida anímica dos povos primitivos e das crianças.

 A massa é impulsiva, volúvel e excitável. É guiada quase exclusivamente pelo inconsciente.

Os impulsos a que obedece podem ser, conforme as circunstâncias, nobres ou cruéis, heroicos ou covardes, mas, de todo modo, são tão imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservação, se faz valer

Nada nela é premeditado. Embora deseje as coisas apaixonadamente, nunca o faz por muito tempo, é incapaz de uma vontade persistente. Não tolera qualquer demora entre o seu desejo e a realização dele. Tem o sentimento da onipotência; a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa.

A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não têm sua coincidência com a realidade medida por uma instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza.

Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem.

Inclinada a todos os extremos, a massa também é excitada apenas por estímulos desmedidos. Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com as imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma coisa.

Como a massa não tem dúvidas quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo tempo, intolerante e crente na autoridade.

Ela RESPEITA A FORÇA, e deixa-se influenciar apenas moderadamente pela BONDADE, que para ela é uma espécie de fraqueza. O que ela exige de seus heróis é fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores.

 No fundo inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações, e ilimitada reverência pela tradição.

Para julgar corretamente a moralidade das massas, deve-se levar em consideração que, ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos* cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígios dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva.

Mas as massas são também capazes, sob influência da sugestão, de elevadas provas de renúncia, desinteresse, devoção a um ideal. Enquanto a vantagem pessoal, no indivíduo isolado, é quase que o único móvel de ação, nas massas ela raramente predomina. Pode-se falar de uma moralização do indivíduo pela massa.

Enquanto a capacidade intelectual da massa está bem abaixo daquela do indivíduo, sua conduta ética tanto pode ultrapassar esse nível como descer bem abaixo dele.

Alguns outros traços, na caracterização de Le Bon, lançam uma clara luz sobre a validez de identificar a alma da massa com a dos povos primitivos.

Nas massas as IDEIAS OPOSTAS podem coexistir e suportar umas às outras, sem que resulte um conflito de sua contradição lógica.

O mesmo sucede, porém, na vida anímica inconsciente dos indivíduos, das crianças e dos neuróticos, como há muito demonstrou a psicanálise.

 Além disso, a massa está sujeita ao poder verdadeiramente mágico das palavras, que podem provocar as mais terríveis tormentas na sua alma e também apaziguá-las

A RAZÃO e os ARGUMENTOS não sabem lutar contra certas palavras e certas fórmulas. Proferidas com solenidade diante da massa, imediatamente os rostos se tornam respeitosos e as cabeças se inclinam. Muitos as consideram forças da natureza, poderes sobrenaturais” Quanto a isso, basta lembrar o tabu dos nomes entre os primitivos, as forças mágicas que para eles estão ligadas a nomes e palavras.

E por fim, as massas nunca tiveram a SEDE DA VERDADE. Requerem ilusões, às quais não podem renunciar.

Nelas o irreal tem primazia sobre o real, o que não é verdadeiro as influencia quase tão fortemente quanto o verdadeiro. Elas têm a visível tendência de não fazer distinção entre os dois.Já mostramos que essa predominância da vida da fantasia, e da ilusão sustentada pelo desejo não realizado, é algo determinante na psicologia das neuroses.

Descobrimos que o que vale para os neuróticos não é a realidade objetiva comum, mas a realidade psíquica. Um sintoma histérico se baseia na fantasia, em vez de na repetição da vivência real, a consciência de culpa da neurose obsessiva, no fato de uma má intenção que jamais se realizou.

Como no sonho e na hipnose, na atividade anímica da massa a prova da realidade recua, ante a força dos desejos investidos de afeto.

 Le Bon acredita que, quando seres vivos se reúnem em determinado número, seja um rebanho de animais ou um grupamento de homens, instintivamente se colocam sob a autoridade de um chefe.

A massa é um rebanho dócil, que não pode jamais viver sem um senhor. Ela tem tamanha sede de obediência, que instintivamente se submete a qualquer um que se apresente como seu senhor. Assim, as necessidades da massa a tornam receptiva ao líder, mas este precisa corresponder a ela com suas características pessoais.

 Ele próprio tem de estar fascinado por uma forte crença (numa ideia), para despertar crença na massa; ele tem de possuir uma vontade forte, imponente, que a massa sem vontade vai aceitar.

Le Bon discute então os diferentes tipos de líder, e os meios pelos quais atuam sobre a massa.

No conjunto, entende que os líderes adquirem importância pelas ideias de que eles mesmos são fanáticos. A estas ideias, assim como aos líderes, atribui igualmente um poder misterioso, irresistível, que ele chama de “prestígio”.

O prestígio é uma espécie de domínio que uma pessoa, uma obra ou uma ideia exerce sobre nós QUE:

1.     Paralisa toda a nossa capacidade crítica
2.     Nos enche de espanto e respeito.
3.     Provocaria um sentimento semelhante ao do fascínio na hipnose.
4.     Distingue o prestígio adquirido ou artificial e o pessoal.
a.      Prestígio adquirido ou artificial -  é dado às pessoas pelo nome, a riqueza, a reputação, e conferido às concepções, obras de arte etc. pela tradição. Como em todos os casos ele remonta ao passado, pouco ajudará na compreensão dessa misteriosa influência.
b.      O prestígio pessoal existe em poucas pessoas que através dele se tornam líderes, e faz com que todos a elas obedeçam, como sob o efeito de um encanto magnético. Mas todo prestígio depende também do sucesso, e é perdido com o fracasso.

Nota: “As considerações de Le Bon sobre o papel do líder e a importância do prestígio não nos parecem se harmonizar com a sua brilhante descrição da alma coletiva.”