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sábado, 23 de maio de 2020

Estigma e constituição de Identidade Social

Os estigmas existem desde que o mundo é mundo, desde os gregos, a era cristã até a vida contemporânea, porém, se apresentam de formas diferenciadas e adaptadas a cada época. Os estigmas correspondem aos rótulos e formas de categorização de uma pessoa ou sociedade, naturalizando conceitos considerados “normais” a respeito do indivíduo, comunidade ou sociedade, que revelam a sua “identidade social” ou ainda, “status social”, conforme explica Erving Goffaman, em seu livro Estigma. Ao estigmatizar o sujeito, projetamos nossas expectativas sobre o mesmo, categorizando-o ou estereotipando-o a partir de nossos valores, entretanto nem sempre corresponde à realidade do mesmo, o que o autor chamou de “identidade social real”. Goffaman menciona três tipos de estigmas diferentes:
  • Abominações do corpo-deformidades físicas.
  •  Culpas de caráter individual-vontades fracas, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsa se rígidas, desonestidade, inferidas a partir de distúrbio mental, prisão, vício, suicídio e comportamento político radical.
  •  Estigmas tribais de raça, nação e religião.


Partindo desse contexto, percebe-se na charge que,o Brasil pode ser visto como um país supostamente, de “duas classes sociais”: a classe política e a classe social marginalizada, pelos diversos rótulos e categorizações que lhes são impostas, identificando-a socialmente, de forma pejorativa e depreciativa, o que ratifica o processo de exclusão vitalício proposto pelos julgamentos dos vários governantes desse país. Entretanto, importante salientar que há aí, uma postura reativa aos governantes, de não aceitação de categorização depreciativa quando é dado o recado aos governantes de que “não cabe mais embaixo do tapete”, e que essas pessoas estigmatizadas buscam seu lugar de direito em meio a sociedade, embora ainda enfrentem inúmeras dificuldades de preconceitos, estereótipos e discriminação, na sociedade contemporânea, entendendo que podem e devem estar no lugar e na posição que desejar. Contudo, ainda há muito o que conquistar para desfazer esses estigmas socialmente aceitos, naturalizados pela sociedade. E é em meio a esse enfrentamento, que muitos estigmas sociais que afetam o sujeito podem leva-lo a buscar o auxílio psicológico, pois os estigmas sociais estão tão naturalizados, que muitas dessas pessoas se sentem identificadas pessoalmente, com essas categorias depreciativas, internalizando-a como se fizesse parte de sua identidade pessoal, quando na verdade, precisam descobrir o seu potencial real e individual de realização e conquistas, para conseguir lidar com essa cultura de exclusão que o Brasil traz.




REFERÊNCIA:
Livro Estigma, Ervinf Goffman
Googel imagens

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Resumo do Artigo Psicologia Social Contemporânea: Principais Tendências e Perspectivas Nacionais e Internacionais

Artigo publicado por Maria Cristina Ferreira, Universidade Salgado de Oliveira, traz uma perspectiva sobre o estado atual da Psicologia Social no plano nacional e internacional.


BREVE HISTÓRIA DA PSICOLOGIA SOCIAL

  • Tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de abordagens teóricas de conhecimentos sociopsicológicos, e devido a sua amplitude tem dificultado delimitar o seu objeto de estudo.
  • Tem como centro das preocupações o indivíduo-sociedade, ou seja, estudar as relações entre indivíduos, deste com a sociedade e a cultura.
  • Dedica-se prioritariamente ao estudo dos processos socioculturais, concebendo o indivíduo como integrante desse sistema, porém, vem focando cada vez mais em processos intraindividuais.
  • ênfase dada ao indivíduo e à sociedade levou a duas modalidades de Psicologia Social: Psicologia Social Psicológica (EUA) que procura explicar sentimentos, pensativos e comportamentos  na presença real ou imaginada de outras pessoas, focando ainda no modo como as pessoas respondem aso estímulos sociais; e a Psicologia Social Sociológica (EUROPA) que tem como foco o estudo da experiência social que o indivíduo adquire a partir de sua participação nos diferentes grupos sociais com os quais convive, privilegiando os fenômenos grupais e sociais.
  • Surge mais recentemente, na América Latina, a Psicologia Social Crítica ou Psicologia Social-Histórico-Crítica por adotarem uma postura crítica em relação às instituições, organizações e práticas da sociedade atual e conhecimentos produzidos pela Psicologia Social, colocando-se contra a opressão  e a exploração presentes na maioria das sociedades e têm como um de seus principais objetivos a promoção da mudança social como forma de garantir o bem-estar do ser humano, como bem afirma Hepbun,2003 apud  Maria Cristina Ferreira.
PRINCIPAIS TENDÊNCIAS QUE MARCARAM A PSICOLOGIA SOCIAL

A Psicologia Social na América do Norte (AN):
  • Obras que marcaram a fundação oficial da Psi Social na AN: o livro Uma introdução à psicologia social, de autoria de William McDougall, no âmbito da sociologia, e o livro Psicologia social: uma resenha e um livro texto, de autoria de Edward Ross, no âmbito da Psicologia (Pepitone, 1981).
  • A Psicologia Social se desenvolveu no âmbito das duas disciplinas,a té que no século XX, a Psicologia Social Psicológica se torna a forte tendência, sob influência do behaviorismo.
  • Floyd Allport, em seu livro texto de Psicologia Social (1924) defendia a ideia de que a Psicologia Social deveria focar no estudo experimental do indivíduo, diante dos estímulos de  seu ambiente social que era submetido.
  • Allport define os contornos da Psicologia Social Psicológica como uma disciplina objetiva, de base experimental e focada no indivíduo (Franzoi, 2007 apud Ferreira). 
  • 1920-1930 - domínio dos estudos sobre ATITUDES, INFLUÊNCIA SOCIAL INTERPESSOAL e da DINÂMICA DE GRUPOS.
  • ATITUDES  - Desenveu técnicas para mensurar o que era um fenômeno mental.
  • INFLUÊNCIA SOCIAL e DINÂMICA DE GRUPOS psicólogos influenciados pela Gestalt  procuravam conhecer o processo de formação de normas sociais, concluindo que os grupos desenvolvem as normas que governam e julgam os indivíduos (Normas Grupais).
  •  (Lewin, Lippitt & White, 1939) dedicaram-se à análise da influência dos estilos de liderança e do clima grupal sobre o comportamento dos membros do grupo e que havia uma liderança democrática que produzia tais normas, tornando o trabalho produtivo, mesmo que o líder não esteja presente.
  • Liderança Laissez-faire, contribuía para que o membros permanecessem passivos.
  • Liderança Autocrática deixava seus membros agressivos e apáticos.
  • Anos 20 , marcado o pós guerra, pela ATITUDE e PERCEPÇÃO DA PESSOA, surgindo estudos sobre a capacidade de comunicação e persuasão. A percepção de pessoas até hoje continua sendo uma das áreas centrais de estudo da Psicologia Social Psicológica.
  • Teoria do Equilíbrio de Heider (1946), as pessoas tendem a ter posições coerentes em relação a um mesmo objeto ou pessoa, mantendo-se em equilíbrio. Quando não há equilíbrio vivem situação de tensão e procuram restabelecer  mudando elementos a ele relacionados.
  • 1950-1960 - Renovam-se os interesses pelas pesquisas sobre influencia social e processos intergrupais. 
  • Surgem estudos sobre CONFORMIDADE estavam voltados para investigar os diferentes fatores que levam o indivíduo a permanecerem no grupo mesmo que não concordem com suas ideias. (Ex: Experimento de Milgran (1965) sobre obediência e autoridade).
  • Surge  a Teoria dos Processos de Comparação Social (Festinger, 1954) que defende que as pessoas necessitam avaliar suas habilidades e opiniões a partir de comparações realizadas com outros indivíduos que lhes são similares. Teoria atualmente muito usada nos processos de formação da identidade pessoal e social.
  • Posteriormente, a teoria da dissonância cognitiva, na qual estabelece que as pessoas são motivadas a procurar o equilíbrio entre suas atitudes e ações. (Festinger,1957).
  • 1970-1980 surgem as Teorias da Atribuição, que vai se debruçar sobre os processos cognitivos responsáveis pelos julgamentos sociais, isto é, pelos mecanismos que levam o indivíduo a perceber e atribuir causas internas (pessoais) ou externas (situacionais) ao comportamento do outro, bem como sobre os erros e vieses que interferem em tais processos.
  • Anos 80 - cognitivismo se consolida como perspectiva dominante da Psicologia Social Psicológica(EUA), e seu principal tema  de investigação passa a ser COGNIÇÃO SOCIAL, que tem como objetivo básico compreender os processos cognitivos que se encontram subjacentes ao pensamento social (Fiske & Taylor, 1984).
  • A crise da Psi Social Psicológica (EUA) foi marcada por uma excessiva individualização sobre o indivíduo e movimentos sociais ocorridos, como o feminismo, por exemplo.Questionou-se a sua relevância social, pois se utilizava de uma linguagem científica neutra distanciando-se dos problemas sociais reais.
  • TENDÊNCIAS ATUAIS: foco em três temas centrais à Psicologia Social: COGNIÇÃO SOCIAL, as ATITUDES e os PROCESSOS GRUPAIS, destacando-se  A NEUROCIÊNCIA SOCIAL e a PSICOLOGIA SOCIAL EVOLUCIONISTA.
  • COGNIÇÃO SOCIAL: subárea da Psicologia, que considera a ATENÇÃO, PERCEPÇÃO, MEMÓRIA e JULGAMENTO  como diferentes etapas do processo cognitivo. Estuda o conteúdo das representações mentais e os mecanismos ocorridos no processo de informação social. Foca ainda nos modos pelos quais as impressões, crenças e cognições sobre os estímulos sociais se formam e afetam o comportamento.
  • Pesquisas mais recentes apontam que os afetos e motivações individuais interagem com as cognições na determinação do comportamento social (Schwarz, 1998), e que fatores motivacionais podem interferir no grau de esforço cognitivo, que processam , facilitam e ativam esquemas cognitivos.
  •  recentemente, porém, os psicólogos sociais cognitivistas passaram a explorar as características da situação social que interferem nas estratégias de processamento, ou seja, uma cognição social situada. Com isso, a ênfase se desloca do “pensamento sobre os estímulos sociais” para o “pensamento no contexto social” (Schwarz, 1998). 
  •  os principais fenômenos psicossociais investigados atualmente, na perspectiva da cognição social, encontram-se o self, a formação de impressões, a percepção de pessoas e os estereótipos.
  •  No contexto do cognitivismo, o self é conceituado como um autoesquema, isto é, como uma representação mental que contém o conhecimento do percebedor acerca de si próprio, no que se refere a suas características de personalidade, papéis sociais, experiências passadas e metas futuras (Quinn & cols., 2003). O self decorre, portanto, de um processo flexível e construtivo de julgamento sobre si mesmo.
  • Os estereótipos, a formação de impressões e a percepção de pessoas constituem temas tradicionalmente estudados pela Psicologia Social e centrais à área de cognição social.
  • Os estereótipos consistem em esquemas ou representações mentais sobre grupos sociais, interferindo ativamente no processo de formação de impressão e percepção de pessoas. estudos mostram que as pessoas costumam fazer INFERÊNCIAS INICIAIS (formação e percepção de pessoa) baseada em ESTERIÓTIPOS. Posteriormente, dependendo de sua motivação e habilidade poderá corrigir suas impressões iniciais.
  • Atitudes estão associadas a crenças, valores e opiniões. São avaliações gerais que variam do extremo negativo ao extremo positivo, dos objetos presentes no mundo social.
  •  “formação de atitudes” e “mudança de atitudes”  são expressões vinculadas a processos distintos (Crano & Prislin, 2006). Assim é que a formação de atitudes costuma ocorrer de forma não consciente, por meio de aprendizagem condicionada ou mediante a mera exposição a estímulos vivenciados como afetivamente positivos. A mudança de atitudes, por seu turno, costuma ocorrer no plano consciente e vem sendo mais recentemente explicada pelos modelos de processos duais (Chaiken & Trope, 1999).
  • HEURÍSTICAS são atalhos mentais que usamos para simplificar a solução de problemas cognitivos complexos. São regras inconscientes para reformular problemas e transformá-los em operações mais simples e quase automáticas.
  • PROCESSOS GRUPAIS: avanços realizados em metodologias de análises de dados que consideram o grupo uma unidade autônoma e não uma soma de indivíduos têm propiciado avanços consideráveis no estado atual do conhecimento sobre os processos grupais. 
  • NEUROCIÊNCIA SOCIAL: assim cunhada pela primeira vez por Cacioppo e Berntson (1992), surge movida principalmente pelo interesse de investigar as possíveis associações existentes entre a cognição social e as funções cerebrais, com o intuito de compreender o papel desempenhado pelas estruturas neurais no processamento da informação social (Adolphs, 2009).  campo promissor de investigação na área de Psicologia Social que poderá indubitavelmente contribuir para maior compreensão do comportamento social.
  • PSICOLOGIA SOCIAL EVOLUCIONISTA: tem origem na Teoria da Evolução de Darwin segundo a qual a evolução das espécies se dá com base em um ciclo que inclui a variação, a competição e a hereditariedade.  As espécies apresentam variações em suas características constituintes e habilidades para lidarem com seu meio ambiente e que  somente aquelas dotadas de maiores habilidades competitivas irão conseguir sobreviver, bem como transmitir tais habilidades para a geração seguinte.  Os psicólogos sociais evolucionistas defendem que processos similares à evolução genética operam na transmissão da cultura. Diferentes grupamentos humanos variam em suas crenças e valores culturais, e que, em função de recursos cognitivos limitados, algumas dessas variantes culturais são mais prováveis de serem aprendidas e lembradas, em geral aquelas transmitidas por modelos mais proeminentes (pais, celebridades etc.).  Apoia-se no pressuposto de que muitos pensamentos, sentimentos e comportamentos sociais encontram-se associados a mecanismos biológicos que interagem de forma dinâmica com processos psicológicos e de aprendizagem, no interior de uma determinada cultura.
A Psicologia Social na Europa: Evolução e Tendências Atuais
  • Iniciou a partir de 1970 mo0tivada pela crise da Psicologia Social dos EUA.
  •  Entre os temas de estudo mais frequentes no contexto europeu encontram-se a identidade social, que se insere principalmente no contexto das relações intergrupais, e as representações sociais, que remetem a uma psicologia dos grupos e coletividades
  • TEORIA DA IDENTIDADE SOCIAL: procuraram enfatizar a dimensão social do comportamento individual e grupal, ao postularem que o indivíduo é moldado pela sociedade e pela cultura. (Tajfel, 1981; Tajfel & Turner, 1986). defendem que as relações intergrupais estão intimamente relacionadas a processos de identificação grupal e de comparação social. Apoia-se em três postulados: (1) o autoconceito é derivado da identificação e pertença grupal; (2) as pessoas são motivadas a manter uma autoestima positiva; (3) as pessoas estabelecem uma identidade social positiva mediante a comparação favorável de seu próprio grupo (in-group) com outros grupos sociais (out-groups).
  • TEORIA DA CATEGORIZAÇÃO DE TURNER, HOGG, OAKES, REICHER E WETHERELL (1987): tem foco nos fatores que levam os indivíduos a realizarem determinadas categorizações, bem como suas consequências para o comportamento coletivo. Postula-se, assim, que a depender da força da pressão social presente em determinadas situações, as pessoas deixarão de lado suas características idiossincráticas (autopercepção) e ativarão suas identidades sociais, o que as levará ao engajamento em ações coletivas. Para eles, as identidades sociais consistem em categorias socialmente construídas que se mostram mais ou menos salientes, em função das características da situação social. 
  • TEORIA DA IDENTIDADE SOCIAL vem procurando elucidar o papel desempenhado pelo autoconceito nos processos e relações interpessoais ao articular fenômenos sociocognitivos, motivacionais e macrossocial.Vem sendo utilizada mais recentemente não apenas no estudo das relações intergrupais, mas também na investigação da autocategorização e de vários processos grupais, como a coesão, a liderança, a influência social etc.
  • TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS: englobam um conjunto de conceitos, imagens e explicações que se originam do senso comum, no contexto das interações e comunicações interpessoais vão se modificando à medida que novos significados vão sendo acrescentados à realidade, apoiando-se nos processos de ancoragem e objetivação.  (Moscovici,1981)
  • TEORIA DO NÚCLEO CENTRAL (ABRIC, 1994) defende que toda representação social organiza-se em torno de um núcleo central e de elementos periféricos. O núcleo central consiste no elemento essencial da representação, em função de organizá-la e lhe dar sentido.

A Psicologia Social na América Latina: Evolução e Tendências Atuais
  • Até a década de 1970, esteve grandemente influenciada pelo paradigma da Psicologia Social Psicológica.
  • Os Psicólogos Sociais, em prol de uma psicologia social mais contextualizada, isto é, mais voltada para os problemas políticos e sociais que a região vinha enfrentando, passando a adotar a Psicologia Social Crítica, defendendo uma psicologia mais comprometida com a realidade social.
  •  Martín-Baró (1996) enfatiza que a principal tarefa do psicólogo social deve ser a conscientização de pessoas e grupos, como forma de levá-los a desenvolver um saber crítico sobre si e sobre sua realidade, que lhes permita controlar sua própria existência. Que os psicólogos sociais contribuam para a construção de identidades pessoais, coletivas e históricas capazes de romper a situação de alienação das maiorias populares oprimidas e desumanizadas que vivem à margem da sociedade dominante e, consequentemente, levar à mudança social. Para ele (Martin-Baró, 1989), então, a construção teórica em psicologia social deve emergir dos problemas e conflitos vivenciados pelo povo latino-americano, de forma contextualizada com sua história.
A Produção Brasileira em Psicologia Social
  • 1930- surgem as primeiras publicações brasileiras sobre questões psicossociais.
  • 1962 - Ocorre a Institucionalização da Psicologia Social quando o CFP(Conselho Federa de Psicologia) criou o currículo mínimo para os cursos de Psicologia, estabelecendo a obrigatoriedade do ensino da Psicologia Social.
  • 1970 - A Psicologia Social Psicológica Norte-Americana foi dominante, inclusive na América Latina.
  • 1972 - Publicou-se  o livro “Psicologia social”, de autoria de Aroldo Rodrigues.
  • 1980 -  Criou-se a  da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), estabelecida com o propósito de redefinir o campo da Psicologia Social e contribuir para a construção de um referencial teórico orientado pela concepção de que o ser humano constitui-se em um produto histórico-social, de que indivíduo e sociedade se implicam mutuamente (Jacques & cols., 1998). 
  • 1984 - Publicou-se o livro de Silvia Lane e Vanderley Codo e intitulado “Psicologia social: O homem em movimento”.
  • As três principais vertentes atuais da Psicologia Social, discutidas previamente (Psicologia Social Psicológica, Psicologia Social Sociológica e Psicologia Social Crítica.
  • A preferência dos psicólogos brasileiros pela Psicologia Social Crítica mostra-se coerente com a tendência mais recente de adesão a tal perspectiva que vem sendo observada em diversos outros países da América Latina.
  •  O tema das atitudes, crenças e valores, juntamente com a percepção social, vem, há várias décadas, constituindo-se em um dos principais objetos de estudo dos psicólogos brasileiros. 
  • PSICOLOGIA SOCIAL CRÍTICA  se preocupa basicamente com os problemas sociais, procurando assim desenvolver um saber autônomo e capaz de compreender tais fenômenos.




quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Prova Colegiada - Psicologia Social

Assuntos: 

  • Conceito aprofundado de esteriótipos, sua relação com preconceito, diferenciando-os e entendendo suas características principais, a partir da Teoria da Cognição Social da Psicologia Social.
  • Entendimento da Psicologia Social sobre a exclusão, que depende da materialidade  e, que também é simbólica. Como as pessoas entendem os grupos, seu valor econômico e o movimento de signos que determinam que o sujeito possa transitar em determinados ambientes e não em outros.
O PROCESSO DE EXCLUSÃO SOCIAL

As ambiguidades inerentes ao sistema de exclusão social, revela a complexidade e contraditoriedade que constitui o processo de exclusão social, partindo do enfoque de uma determinada característica em detrimento das demais. Por exemplo, análise centradas no econômico, aborda a exclusão como sinônimo de pobreza; no social, privilegiam a discriminação, etc.

FONTE: Da Vinci design 

A exclusão social sob a perspectiva psicossociológica, é considerada um processo sócio-histórico, que se configura na vida social, vivido como necessidade do eu, como sentimentos, significados e ações.

As configurações da exclusão social, ressalta:
  • a dimensão objetiva da desigualdade social
  • a dimensão ética da injustiça
  • a dimensão subjetiva do sofrimento.
A dialética da exclusão/inclusão:

A Psicologia entende que a lógica dialética inverte a ideia de inclusão social, desvinculando-a à noção de adaptação e normatização, bem como, culpabilidade individual, para ligá-la aos mecanismos psicológicos de coação.

Principal mecanismo de coação social nas sociedade, prevalecendo a desigualdade , onde o pobre é incluído por mediações de diferentes ordens, onde os outros o exclui gerando sentimento de culpa individual.

Gesta subjetividades específicas que vão desde o sentir-se incluído até o sentir-se discriminado ou revoltado, o que não pode ser explicado exclusivamente por determinação econômica, já que determinam e são determinadas por formas diferenciadas de legitimação social e individual. A exclusão envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros.

NOÇÃO DE EXCLUSÃO
  • Tornou-se familiar no cotidiano das mais diferentes sociedades. 
  • Não é apenas um fenômeno que atinge os países pobres. 
  • Sinaliza o destino excludente de parcelas majoritárias da população mundial
  • René Lenoir traz a  concepção de exclusão, não mais como um fenômeno de ordem individual mas social, cuja origem deveria ser buscada nos princípios mesmos do funcionamento das sociedades modernas.
  •  Qualquer estudo sobre a exclusão deve ser contextualizado no espaço e tempo ao qual o fenômeno se refere.
  • O processo de exclusão no Brasil vem sendo construído há 500 anos, mas que precisa ser repensado na sociedade contemporânea.
  • José de Souza Martins (1997) explica que o termo exclusão social passou a ser um rótulo - deus/demônio - responsável e explicativo de tudo e por tudo, no debate dos anos 90, onde a coisificação e fetichização fortalecem os rótulos que empurram as pessoas, os pobres, os fracos, para fora da sociedade, ´para fora de suas "melhores" e mais justas e "corretas" relações sociais.
OS PROCESSOS PSICOSSOCIAIS DA EXCLUSÃO.

A exclusão induz sempre uma organização específica de relações interpessoais ou intergrupos, de alguma forma material ou simbólica, através da qual ela se traduz: 
  • no caso da segregação, através de um afastamento, da manutenção de uma distância topológica;
  • no caso da marginalização, através da manutenção do indivíduo à parte de um grupo, de uma instituição ou do corpo social; 
  • no caso da discriminação, através do fechamento do acesso a certos bens ou recursos, certos papéis ou status, ou através de um fechamento diferencial ou negativo. 
Decorre do estado estrutural ou conjuntural da organização social que se inaugura um tipo específico de relação social, a partir da interação entre pessoas e grupos.

A PSICOLOGIA SOCIAL NO PROCESSO DE EXCLUSÃO


Pode contribuir para análise de fenômenos gerados a partir do estudo das relações sociais, que revela os processos marcados por diferentes alternativas de exclusão.

Tenta dar conta das relações sociais por dupla característica, de onde pressupõe a existência de um laço social, seja ele perverso ou pervertido.
  • focalizar as dimensões ideais e simbólicas e os processos psicológicos e cognitivos que se articulam aos fundamentos materiais dessas relações. 
  • aborda estas dimensões e processos, considerando o espaço de interação entre pessoas ou grupos, onde se constroem e funcionam. 
Busca compreender de que maneira as pessoas ou os grupos que são objetos de uma distinção, são construídos como uma categoria à parte. 

Traz a noção  de preconceito, estereótipo, discriminação, identidade social, as representações sociais e ideológicas que traduzem meios e formas de exclusão social.

Psicologia Social, embora se limite aos processos psicológicos, cognitivos e simbólicos que podem ou acompanhar a situação da exclusão ou dela reforçar a manutenção como racionalização, justificação ou legitimação, traz uma contribuição não negligenciável para a compreensão dos mecanismos que, na escala dos indivíduos, dos grupos e das coletividades, concorrem para fixar as formas e as experiências de exclusão.

Oprofissionais de psicologia se interessam pela estereotipização e os preconceitos  porque estes representam um pilar central de um objetivo maior da Psicologia como ciência: a compreensão do como e do porque as pessoas sentem e reagem a cada uma das outras.

TEORIA DA COGNIÇÃO SOCIAL
  • Aborda a capacidade de compreender as outras pessoas e a si mesmo, dando especial atenção às estruturas cognitivas, que são determinantes na produção do conhecimento social.  
  • Se caracteriza pelo estudo de todos os fatores que influenciam a aquisição, representação e recuperação de informações, e como isso influencia nos julgamentos das pessoas.
  • Analisa o processamento da informação social, ou seja, os processos de  aquisição, representação e recuperação de informações.

PRECONCEITOS E ESTERIÓTIPOS
  • Funcionam como mediadores importantes do processo de exclusão.
  • Designam os processos mentais pelos quais se operam a descrição e o julgamento das pessoas ou de grupos, que são caracterizados por pertencer a uma categoria social ou pelo fato de apresentar um ou mais atributos próprios a esta categoria.
Diferenciando preconceitos de esteriótipos:

PRECONCEITO

É um atitude negativa em relação a uma pessoa, baseada na crença de que ela tem das características negativas atribuídas a um grupo.
  • Julgamento positivo ou negativo, formulado sem exame prévio a propósito de uma pessoa ou de uma coisa e que, assim, compreende vieses e esferas específicas.
  • Implica numa ATITUDE, se comporta na esfera cognitiva, numa dimensão afetiva ligada às emoções e valores.
  • Todos os acontecimentos sociais e todos os outros grupos são pensados e sentidos através de nossos valores, modelos e definições do que é a existência. (Subjetividade)
  • Surgem a partir das representações nos processos de comunicação e no contexto sócio-histórico, mais voltado para os seus conteúdos, do que para sua forma.

ESTERIÓTIPO
  • Estereótipos são associações cognitivas relacionadas com a percepção de grupos
  • Os estereótipos são esquemas que concernem especificamente os atributos pessoais que caracterizam os membros de um determinado grupo ou de uma categoria social dada.
  • Os esquemas facilitam e orientam o processamento da informação sobre coletividades interferindo nos processos de atenção, interpretação e memória, bem como sobre os julgamentos dos membros dos grupos percebidos.
  • As formas são objetos de estudo dos esteriótipos.
  • São "imagens na cabeça", representações do meio social que permitiam simplificar sua complexidade. 
  • Os estereótipos de deslegitimação visam a excluir moralmente um grupo do campo de normas e de valores aceitáveis, por uma desumanização que autoriza a expressão do desprezo e do medo e justifica as violências e penas que lhe infligimos.
CATEGORIZAÇÃO SOCIAL

Segmenta o meio social em classes cujos membros são considerados como equivalentes em razão de características, ações e intenções comuns. Essas modulações afetam as tendências para discriminar e excluir os membros dos outros grupos.

Categorizar implica em pensar a pessoa como membro de um grupo e não admitir sua individualidade, como uma auto-definição pertencente a uma categoria social.

Tem dois sentidos:
  •  A classificação em uma divisão social: colocamos as pessoas em uma categoria dada, por exemplo, homens e mulheres, jovens e velhos, etc.;
  •  aquele da atribuição de uma característica a alguém, caso este que podemos relacionar com a estigmatização ou estereótipo. 
DISCRIMINAÇÃO

  • É um comportamento manifesto, geralmente apresentado por uma pessoa preconceituosa, que se exprime através da adoção de padrões de preferência em relação aos membros do próprio grupo.
  • Pode se dar pela rejeição verbal, através de palavras de insultos, etc. 

REFERÊNCIAS:
A artimanha da exclusão: Bader Sawaia. Editora Vozes.
Axé estereótipos. UFBA. Faculdade de filosofia e ciências humanas. Mestrado em Psicologia.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Síntese de Psicologia Social - um pouco de cada assunto!




OS PERIGOS  DA OBEDIÊNCIA - EXPERIMENTO DE  MILGRAM

 

Conhecido como "Experiência de Milgram", por ter sido conduzido pelo psicólogo Yale Stanley Milgram, ele tinha como objetivo analisar o nível de obediência das pessoas à autoridade. O cientista dividiu 40 voluntários em dois grupos aleatórios: a um disse que seriam professores, e aos outros, que seriam estudantes. Em seguida, levou os "estudantes" para outra sala e pediu aos "professores" que colocassem à prova a memória de seus "alunos". O pesquisador os instruiu a castigar aqueles que errassem com choques elétricos. A máquina que utilizariam emitia descargas que íam de 50 a 450 volts. A potência máxima vinha acompanhada de uma inscrição que dizia "Perigo: choque severo".
A submissão à autoridade é um dilema bastante antigo, existindo desde que a história de Abraão a quem Deus ordenou sacrificar seu filho como prova de fé. Platão discutiu a questão de saber se deve alguém obedecer ou não às ordens quando elas conflitam com a consciência, Sócrates dramatizou e submeteu à análise filosófica, porém, os filósofos conservadores argumentam que a própria estrutura da sociedade é ameaçada pela desobediência. ao passo que  os humanistas acentuam a primazia da consciência individual. Do ponto de vista da psicologia social cognitiva, pode-se afirmar sobre a obediência, influência e persuasão, relatadas acima, que retratam a ideia de Milgram, autor que fundou a Psicologia Social nos estudos sobre conformismo.
CONFLITOS NO SISTEMA PENITENCIÁRIO - EXPERIMENTO DE ZIMBARDO

"Uma década mais tarde, um professor de Psicologia Social da Universidade de Stanford chamado Philip Zimbardo quis levar o experimento de Milgram um passo adiante e analisar o quão tênue é a linha que separa o bem do malEle se perguntava se uma pessoa "boa" poderia mudar sua forma de ser a depender do seu entorno. Afixou então um comunicado nas paredes da universidade oferecendo US$ 15 por dia a voluntários que estivessem dispostas a passar duas semanas em uma prisão falsa. O estudo foi financiado pelo governo, que queria entender as origens dos conflitos no sistema penitenciário americano. Zimbardo selecionou 24 estudantes, a maioria branca e de classe média, os separou em dois grupos, dando-lhes aleatoriamente o papel de guardas e de prisioneiros, e pediu que voltassem para casa. O experimento de fato começou de forma brutal: policiais de verdade, que haviam aceitado participar do projeto, foram à residência dos "prisioneiros" e os detiveram, acusando-lhes de roubo. Eles foram algemados e levados à delegacia, onde foram fichados e transportados, com os olhos vendados, a um suposto presídio local - mas que na verdade era o sótão do Departamento de Psicologia de Stanford, que havia sido transformado, de forma bastante realista, em uma prisão.


O pesquisador estadunidense e professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, Philip Zimbardo, realizou um polêmico estudo experimental. em 1971, no qual simulou as condições de uma prisão. Os estudantes selecionados para o experimento cumpriram o papel de carcereiros e prisioneiros. O experimento revelou um componente agressivo entre os carcereiros, e os prisioneiros apresentaram distúrbios emocionais. Por esta razão, o experimento precisou ser cancelado. até hoje o experimento vem repercutindo e, Zimbardo se tornou um especialista em estudos das condições carcerárias, pesquisando sobre a prisão de AbuGhraib. 



A partir desse experimento, fundante na Psicologia Social, pode-se afirmar que se refere ao que a psicologia social chama de influência social e persuasão, além de demonstrar a função estruturante do desempenho de papeis sociais.



VIGIAR E PUNIR - MICHAEL FOUCAULT


O primeiro capítulo do livro Vigiar e Punir, retrata com requintes de detalhes, como se davam os suplícios na época: 

"...desapareceu o corpo supliciado, esquartejado, amputado, marcado simbolicamente no rosto ou no ombro, exporto vivo ou morto, dado como espetáculo. Desapareceu o corpo como alvo principal da repressão penal..." 

É certo  afirmar que o suplício era uma forma perigosa de punição, pois incitava a vingança e a ira da população. Além disso, Foucault realiza uma genealogia das técnicas punitivas ressaltando o papel da psicologia e da criminalidade como saberes que a princípio tinha função retificadora e ortopédica da subjetividade humana. E com a penitenciária, novas formas de punir são engendradas e construídas novas técnicas de adestramento que agirão sobre os corpos e as almas. Os estudos sobre as prisões de Foucault não tem o objetivo de saber se as prisões são corretas ou não, mas sim, entender esses dispositivos de normalização e todas as consequências desse tipo de poder.

PSICOLOGIA SOCIAL: 

ESQUEMA  é visto como subproduto do processo de categorizaçãoÉ definido como uma "estrutura abstrata de conhecimento que especifica os fatores determinantes e os atributos de um dado conceito."(Pereira,2002, p110) quando aplicado em grupos sociais, são esquemas de grupo. Facilitam e orientam o processamento da informação sobre coletividades interferindo nos processos de atenção, interpretação e memória, bem como sobre os julgamentos dos membros dos grupos percebidos.

CATEGORIZAÇÃO é um processo de subsunção em uma categoria, presente na formação dos estereótipo. Categorizar implica em pensar a pessoa como membro de um grupo e não admitir sua individualidade, como uma auto-definição pertencente a uma categoria social.

PAPÉIS SOCIAIS E ATITUDES  se relacionam na medida em que, embora a ATITUDE seja uma predisposição de cada sujeito, é formada através das interações deste sujeito nos seus diversos papéis sociais.

COGNIÇÃO MENTAL segundo Monteio e Neto, consiste em uma operação mental, que está na base do funcionamento social, envolvendo a capacidade humana de perceber a intenção e a disposição do outro em um determinado contexto. Isso inclui as habilidades nas áreas da percepção social, atribuição e empatia e reflete a influência do contexto social. Portanto, pode-se afirmar que ESTEREÓTIPO é uma matriz de pensamentos e sentenças com características de homogeneidade, fixidez e super generalização.


MODELO COMUNITÁRIO DE SAÚDE

Leva em conta a atividade dos usuários dos sistemas de assistência e a constituição de uma cultura própria a um grupo... Designa um contexto e maneira em função dos quais se materializam as transformações no campo da saúde... busca superar limitações de um modelo biomédico,unis- setorialidade, individualismo, privação de responsabilidade dos usuários no sistema de assistência... partindo dessas ideias sobre o modelo comunitário de saúde, pode-se afirmar que  esse modelo se aproxima com a concepção que a psicologia social traz de valorizar as representações, cognições e atitudes dos sujeitos envolvidos na interação social e no processo de saúde.

A Psicologia Social traz a perspectiva de que as populações socialmente vulneráveis, como quilombolas, negros, indígenas, ribeirinhas, refugiados ou outras, são constantemente atravessadas por exclusões sociais que formam maioria psicológica,sustentadas por ideologias de poder e desigualdades históricas e sociais.

A diferença da atuação do psicólogo social enquanto profissional e agente de um sistema de Estado (CREAS,CRAS,CRAM,ETC) e a psicologia social enquanto campo epistemológico, pode se dar a partir do entendimento de ambas, onde sendo a Psicologia Social  uma área da Psicologia que estuda a interação entre as subjetividades do indivíduo e concepções inerentes ao meio social. Nessa perspectiva, pode-se questionar como pode essa subjetividade se manifestar plenamente, se as regras e normas da sociedade, são impostas desde o nascimento até a morte, por meio de uma determinada disciplina, imposta a todos?  Outra questão, está no fato de que as especificidades éticas do indivíduo, por vezes, não encontram eco nas regras morais impostas por determinadas sociedades. Ambas as questões,na perspectiva do psicólogo social, pode ser pensada em como este pode atuar de forma plena no tratamento dos pacientes inseridos no sistema de saúde com regras tão massificantes e rígidas que tentam enquadrar a todos aqueles considerados fora dos padrões? Da mesma, forma, como pode a subjetividade do indivíduo, ser respeitada ou defendida estando o mesmo inserido no contexto onde as convicções sociais determinam o certo e o errado, o legal e o ilegal? Partindo desses questionamentos, a diferença entre a teoria e prática é uma realidade bastante clara, mas que não deve levar à estagnação.