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sábado, 24 de outubro de 2020

Conceito de Resistência na Psicanálise


  • Na psicanálise a palavra RESISTÊNCIA  toma um sentido bem particular e bem difundido, merecendo o status de um importante conceito psicanalítico.
Dois conceitos segundo dicionário psicanálitico:

  • conceito de resistência, na psicanálise, designa "o conjunto das reações de um analisando cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise" (Roudinesco & Plon, 1998, p. 659)
  • ou "tudo o que, nos actos e palavras do analisando, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente" (Laplanche & Pontalis, 1988, p. 595-6)
O conceito de resistência na obra de Freud

Freud agrupo esses conceitos de acordo com seus significados e contextos de uso:
  • Resistência da doença 
    •  resistência ao tratamento e à cura, mas ainda não se referia à psicanálise. 
    • Esse conceito de resistência tem uma grande semelhança com o conceito psicanalítico, na medida em que este também consiste na resistência ao tratamento, porém por parte do doente, não da doença.
  • Resistência do organismo ou do paciente
    • seria a resistência do organismo à doença.
  • Resistencia à hipnose e sugestão
    • Freud (1889/1987) já mencionava a resistência enquanto um obstáculo à hipnose na sua resenha do livro Hipnotismo, de August Forel, onde escreve que "essa influência apenas raramente se efetua sem resistência da parte da pessoa hipnotizada" (p. 118).
    • Em seu artigo Hipnose, de 1891, afirma que "sempre que surge uma intensa resistência contra o uso da hipnose, devemos renunciar ao método e esperar até que o paciente, sob a
    • influência de outras informações, aceite a idéia de ser hipnotizado" (Freud, 1891/1987,
    • p. 125).
    • A resistência à hipnose era, sem dúvida, uma resistência consciente, o que a afasta da concepção psicanalítica. 
    • A psicanálise, por seu lado, parece ter encontrado no inconsciente uma forma de  deslegitimar a resistência, interpretada como íntima ao mecanismo do recalque.
  • Ressitência à constituição do conceito psicanalítico;
  • Ressitência à concepção neurológica
  • Resistência a interpretação dos sonhos
    • "Sua opinião de que o sonho é absurdo significa apenas que você tem uma resistência interna contra a interpretação dele" (ibid., p. 154); 
    •  "Lembrei-me de minha resistência em proceder à interpretação, de quanto a havia odiado, e de como declarara que o sonho era puro absurdo" (ibid., p. 156). 
    • Freud fala também do sentido dos sonhos "com um estímulo dental", onde "havia  invariavelmente resistências fortíssimas a sua interpretação" (ibid., p. 363).
São elementos do conceito psicanalítico de resistência:  associação, lembrança (Há outros?)

O sentido eminentemente psicanalítico do conceito de resistência só apareça nos Estudos sobre a histeria, segundo Freud:

"A quantidade de afeto que devotamos à primeira associação de um objeto oferece resistência a que ela entre numa nova associação com outro objeto [...]" (Freud, 1893/1987, p. 190).

O fenômeno da resistência só vem se configurar efetivamente no último dos cinco relatados, o da Srta.
Elisabeth von R., cujo tratamento se iniciou no outono de 1892 e foi descrito por Freud como sua  primeira análise integral de uma histeria", sobre o qual conclui que aklgo acontecia a paciente que lhe escondia, e que não poderia se livrar de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa. Freud conclui que:

 "A resistência que ela havia repetidamente oferecido à reprodução das cenas que atuaram de forma dramática correspondera, na verdade, à energia com que a representação incompatível fora expulsa de suas associações" (ibid., p. 170). Fala-nos ainda que a paciente "ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência" (ibid., p. 177).

No seu ensaio sobre "A psicoterapia da histeria", última parte do seu livro com Breuer, Freud (ibid., p. 264) traz a questão da resistência um pouco mais sistematizada:

[...] a situação conduziu-me de imediato à teoria de que, por meio de meu trabalho psíquico, eu tinha de superar uma força psíquica nos pacientes que se opunha a que as representações patogênicas se tornassem conscientes (fossem lembradas). [...] De tudo isso emergiu, como que de forma automática, a idéia de defesa.

De fato, a defesa, que se havia tornado um importante critério na classificação das neuroses por Freud, estava intimamente relacionada à resistência. Creio que seja pertinente a observação de que os dois conceitos chegam a se confundir em alguns momentos, como no trecho a seguir: "[...] e durante todo o tempo tenho negligenciado de tal maneira o aspecto da defesa ou resistência" (ibid., p. 272). De fato, se restringirmos o conceito de resistência ao fenômeno do afastamento de certas representações da consciência, este será bem parecido com o de defesa, assim como com o de recalque. Entretanto, o conceito de resistência é mais amplo, e usado em múltiplos contextos.

Ainda neste ensaio, Freud apresenta a tarefa do terapeuta como a de superar a "resistência à associação" (ibid., p. 265), e vem salientar a importância do fator afetivo entre as motivações do médico para superar a resistência do paciente.

De fato, é em A interpretação dos sonhos, publicado em 1900, que o conceito de resistência,  toma uma forma mais elaborada em relação à teoria e à prática da psicanálise. O último sentido que o  conceito assume no seu livro sobre os sonhos é o da resistência ao tratamento ou análise de uma forma geral:

  • "Portanto, eu estivera comparando minha paciente Irma com duas outras pessoas que também teriam sido resistentes ao tratamento" (ibid., p. 131); 
  • "Esse sonhador pertencia a um tipo de pessoas cujas perspectivas terapêuticas não são favoráveis: até certo ponto, não oferecem absolutamente nenhuma resistência à análise [...]" (ibid., p. 344-5). 
  • Ou esta resistência pode ser dirigida especificamente ao analista:  "[...] quando um paciente se encontra num estado de resistência a mim [...]" (ibid., p.170)

  • "A psicanálise é justificadamente desconfiada. Uma de suas regras é que tudo o que interrompe o progresso do trabalho analítico é uma resistência" (ibid., p. 475). 


    Referência:  Recorte do Artigo: A gênese do conceito de resistência na psicanálise.  André Santana Mattos - http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176- 106X2010000100002#1a



    domingo, 30 de agosto de 2020

    Recortes de um artigo sobre Histeria: José Antonio Pereira da Silva – 2021.

    O Artigo: BELINTANI, Giovani. Histeria. PSIC - Revista de Psicologia da Vetor Editora, Vol. 4, nº.2, 2003, pp. 56-69. Em: Acesso: 30/08/2021

    Introdução 

    A histeria vem sendo objeto de estudo desde os primórdios da medicina, na Grécia Antiga com Hipócrates. O diagnóstico para a pessoa histérica era conhecido como neurose histérica ou histeria de conversão. Hoje o diagnóstico é nomeado como transtorno dissociativo ou conversivo
    As pessoas que manifestavam tais sintomas e comportamentos, expostos no decorrer do presente artigo, foram alvo de estudo não somente de médicos, mas de neurologistas, psiquiatras e até de padres e bispos da época.

     Foi por meio dos atendimentos às histéricas, que Sigmund Freud, no final do século XIX, descobriu o inconsciente, elaborando um método de tratamento, a Psicanálise. E desde a época de Freud que esse tratamento vem sendo utilizado em pacientes com o referido diagnóstico. 

    Objetivo 

    CONCEPÇÕES HISTÓRICAS DA HISTERIA 

    O termo histeria é derivado da palavra grega hystera e significa matriz. De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, matriz é o "lugar onde algo se gera ou cria; órgão das fêmeas dos mamíferos onde se gera o feto; útero" (1988, p. 422). 

    Hipócrates, médico renomado da Grécia Antiga (460-377 a.C) entendia a histeria como sendo uma doença orgânica de origem uterina e, portanto, especificamente feminina que afetava todo o corpo por sufocações da matriz. Ele supunha que a histeria se desenvolvia pela privação de relações sexuais, dessecando o útero, que perderia peso e se deslocaria pelo corpo em busca da umidade necessária. A paciente teria sua respiração afetada, desenvolvendo convulsões se o útero subisse até o hipocôndrio e estacionasse nesse órgão. Caso o útero prosseguisse sua subida e atingisse o coração, a paciente emitiria sinais de ansiedade, opressão e vômitos. 

    Na Idade Média, "período histórico compreendido entre o começo do séc. V e meados do séc. XV" (Ferreira, 1988, p. 348-349), a histeria deixou de ser abordada pela medicina e, sob a influência das idéias religiosas mais especificamente as concepções agostinianas, passou a ser objeto da Teologia. De acordo com as concepções religiosas da época: "O homem, dotado de uma alma imortal, seria sujeito a tentação pelo não cumprimento de seus deveres religiosos ou por não conduzir a sua vida dentro do espírito cristão" (Ramadam, 1985, p. 55). Elisabeth Roudinesco e Michel Plon afirmam que "as convulsões e as famosas sufocações da matriz eram consideradas a expressão de um prazer sexual e, por conseguinte, de um pecado" (1998, p. 338). A mulher era vista como sendo possuída por um demônio, que a fazia agir involuntariamente, simulando doenças

    A Igreja Católica Romana, por meio da Inquisição, investigava e reconhecia os casos de bruxaria e mandava para a fogueira todos aqueles que se comportavam histericamente. Durante mais de dois séculos, a caça às bruxas fez muitas vítimas, mesmo a opinião médica se opondo contra essa concepção demoníaca da possessão. 

    Ramadam considera que no período clássico (século XVII até parte do século XVIII), a histeria era entendida como desenvolvida pelo efeito de "um calor interno que propagaria através de todo o corpo uma efervescência, uma ebulição, manifestando-se sem cessar em convulsões e espasmos" (1985, p. 56). Esse calor seria representante da paixão, entusiasmo ou ardor amoroso. Sob essa perspectiva, a histeria é associada a moças que procuram namorados, jovens viúvas ou separadas. 

    Em meados do século XVIII com as colaborações de Franz Anton Mesmer, as concepções demoníacas da histeria cederam às concepções científicas da mesma. A histeria deixa de ser objeto de investigação da Igreja para ser uma doença dos nervos, cabendo à medicina estudá-la e tratá-la. 

    Mesmer sustentou que as doenças nervosas tinham como origem um desequilíbrio na destribuição de um fluído universal. Assim, bastava que o médico, transformado em magnetizador, provocasse crises nos pacientes, em geral mulheres, para curá-los mediante o restabelecimento do equilíbrio do fluído. (Roudinesco & Plon, 1998, p. 338) Em 1843, na Inglaterra, o médico escocês James Braid substituiu a teoria do fluído da histeria pela ideia de estimulação físico-químico-psicológica da histeria, mostrando a inutilidade das intervenções do tipo magnética. Braid evidencia a palavra hipnotismo nos seus estudos científicos. 

    Ainda na segunda metade do século XVIII, com os estudos e pesquisas do neurologista francês Jean-Martin Charcot, a histeria é tratada como uma neurose. A moderna noção de uma neurose histérica subentendia uma causa traumática de ordem genital tornando-se uma doença funcional, de origem hereditária, afetando tanto os homens quanto as mulheres. Charcot utilizava a hipnose para demonstrar o fundamento de suas hipóteses. Ele hipnotizava as loucas do hospital parisiense Salpêtrière, fabricando sintomas histéricos para suprimi-los de imediato, comprovando o caráter neurótico da doença. 

    Sigmund Freud, médico austríaco, entre 1888 a 1893, usufruindo dos achados de Charcot sobre os aspectos traumáticos da histeria, afirma com sua Teoria da Sedução que o trauma vivido pelo paciente histérico era de origem sexual, sublinhando que a histeria era fruto de um abuso sexual realmente vivido pelo sujeito na infância (sedução real). 

    Num segundo momento, apresentando a noção de fantasia, renuncia à teoria da sedução, introduzindo as idéias de um trauma, não de ordem física, mas sim de ordem psíquica. Na Comunicação Preliminar dos Estudos sobre a histeria, Freud nos alerta para o fato de que a conexão entre o acontecimento precipitante e o desenvolvimento da histeria freqüentemente é bem clara. E completa que "em outros casos, a conexão causal não é tão simples. Consiste somente no que poderia ser denominado uma relação simbólica entre a causa precipitante e o fenômeno patológico - uma relação tal como as pessoas saudáveis forma os sonhos" (Freud, 1895/1974, p. 45). 

    Roudinesco e Plon (1998, p. 340) escrevem que foi nos Estudos sobre a histeria, que Freud propôs "os grandes conceitos de uma nova apreensão do inconsciente: o recalcamento, a ab-reação, a defesa, a resistência e, por fim, a conversão". Citam também que com a publicação, em 1900, de A Interpretação dos Sonhos, "o conflito psíquico inconsciente é que foi reconhecido por Freud como a principal causa da histeria" (Roudinesco & Plon, 1998, p. 340). E continuam enfatizando os achados de Freud, que "ao lado da realidade material, existia uma realidade psíquica do sujeito", que era de igual importância na história do seu desenvolvimento. E afirmam que "em seguida, a teorização da sexualidade infantil permitiu a Freud identificar o conflito nuclear da neurose histérica, desenvolvendo os conceitos de Complexo de Édipo e Angústia de Castração" (Roudinesco & Plon, 1998, p. 340). 

    As epidemias histéricas do fim do século XIX contribuíram de tal maneira para o nascimento e difusão do freudismo que a própria noção de histeria desapareceu do campo da clínica. A partir de 1914, ninguém mais ousou falar em histeria, a tal ponto que a palavra foi identificada com a própria psicanálise.

     O debate sobre histeria ressurge com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando as discussões geravam em torno de uma nova forma de etiologia traumática e da neurose de guerra. Por fim, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com o desenvolvimento dos trabalhos da medicina psicossomática de inspiração psicanalítica, o termo histeria de conversão teve uma atenção especial. 

    A partir da década de 1960, com os debates norte-americanos e ingleses sobre a Self Psychology e os borderlines, a ideia de personalidade múltipla, termo utilizado para caracterizar a personalidade do indivíduo histérico, é alvo de estudos de médicos, psiquiatras e psicanalistas.” 

    Segue o que BELINTANI (2003) constrói em outro momento do texto: ESTUDOS SOBRE A HISTERIA (Freud, 1895) “Freud, em 1895, publica seus Estudos sobre a histeria em que apresenta seus achados e conclusões a respeito da histeria. Essa obra é composta pelo relato de cinco casos clínicos, sendo que quatro deles foram atendidos pelo próprio Freud. 

    As pacientes de Freud foram Frau Emmy von N., Miss Lucy R., Katharina e Fraülein Elisabeth von R. O caso Anna O. é o primeiro caso clínico citado na obra. Ela foi atendida por Josef Breuer, médico austríaco, que teve com Freud uma relação bastante significativa, tanto afetiva quanto profissional. 

    Freud (1895/1974), nessa obra enfatiza a importância que suas pacientes tiveram para a construção da teoria e técnica psicanalítica. As histéricas ensinaram a Freud alguns dos principais rudimentos da Psicanálise. 

    Emmy von N., por exemplo, se aborrecia quando Freud a questionava de onde veio isto ou aquilo e pedia para ele que a deixasse falar o que ela tinha a dizer. Assim, ouvir para Freud, "tornou-se mais do que uma arte, tornou-se um método, uma via privilegiada para o conhecimento, à qual os pacientes lhe davam acesso" (Gay, 1989, p. 80). 

    A escuta do terapeuta e a fala do paciente foram ganhando reconhecimento de tal forma que a hipnose, como técnica terapêutica, foi perdendo seu valor, sua importância. Com a ajuda de Emmy von N., reconhece a hipnose como sendo um procedimento inútil e sem sentido. Ao abandonar gradualmente a hipnose, Freud adota um novo modelo de tratamento: a técnica da associação livre. 

    Elisabeth von R. mostrou-lhe a resistência, quando se negava a responder o que estava se passando pela sua mente nos momentos em que ele a interrogava. Ela foi a paciente responsável pela descoberta da necessidade de se elaborar os traumas recalcados com a ajuda da interpretação de Freud. Os sintomas de Elisabeth von R. começaram entrar na conversa, também: desencadeavam-se no momento em que ela falava da erupção deles, e amainavam quando terminava de contar toda a sua história. Mas Freud também precisava aprender a lição mais difícil de que a cura não era uma explosão melodramática de percepções. Apenas o relato raramente bastava; os traumas tinham de ser elaborados. O ingrediente final na recuperação de Elisabeth von R. foi a interpretação dos indícios que Freud lhe apresentou e à qual ela resistiu veementemente por algum tempo: ela amava seu cunhado, e havia reprimido desejos perversos pela morte de sua irmã. O fato de aceitar esse desejo imoral pôs termo a seus sofrimentos. 

    "Na primavera de 1894", contou Freud, "soube que ela ia a um baile exclusivo, ao qual tratei de conseguir acesso, e não deixei escapar a oportunidade de ver minha ex-paciente a voar numa dança ligeira" (Gay, 1989, p. 81-82). Enfim, Freud deve muito, não somente a Elisabeth von R. e a Emmy von N., mas também a Miss Lucy R. e a Katharina por elas terem contribuído tão ativamente na elaboração da técnica e teoria psicanalítica: observação atenta, passividade alerta o que Freud chamaria de atenção flutuante interpretação hábil, associação livre sem o recurso da hipnose e elaboração. 

    Rothged, em referência aos Estudos sobre a histeria, afirma que "Freud originou os desenvolvimentos técnicos, juntamente com os conceitos teóricos primordiais de resistência, defesa e recalcamento provenientes daqueles" (2001, p. 119). Em seu artigo E o verbo se fez carne, Maria José Ceranto Garcia enfatiza que "o esclarecimento da etiologia da histeria se dá paralelo ao desenvolvimento da psicanálise" (2000, p. 30). 

    O CASO ANNA O. 
    Josef Breuer atendeu por um ano e meio, com início em dezembro de 1880, Anna O. (pseudônimo de Bertha Pappenheim). Caso este que seria reconhecido como o "caso fundador da psicanálise" (Gay, 1989, p. 74). Anna O., durante o seu tratamento, foi dando importantes contribuições para a formação da teoria psicanalítica. Ela realizou sozinha grande parte do trabalho de imaginação, ensinando Freud sobre a importância da escuta do analista. Anna O. adoeceu quando tinha 21 anos. Apresentava uma tendência para ficar em um devaneio sistemático, seu teatro particular como ela mesma definia. Tinha uma vida bastante monótona, totalmente restrita à família e, como relembrou Freud sobre o julgamento de Breuer a ela, "assombrosamente pouco desenvolvida em termos sexuais" (Gay, 1989, p. 75). A doença fatal do pai é entendida como sendo o acontecimento que precipitou sua histeria. Ela desenvolveu sintomas crescentes de incapacidade, durante os meses que cuidou do pai: fraqueza por não ter apetite, uma série de tosse nervosa e, após seis meses, foi atingida por um estrabismo convergente. Também apresentava dores de cabeça, acessos de agitação, perturbações da vista, paralisias parciais e perda de sensibilidade. Sua sintomatologia foi se modificando com o tempo, chegando a representar lapsos mentais, longos intervalos de sonolência, rápidas alterações de ânimo, alucinações com cobras cegas, caveiras e esqueletos, crescentes dificuldades de fala. Desenvolveu duas personalidades contrastantes, uma delas bastante rebelde. Ela era visitada por Breuer todos os dias. Durante suas consultas ela contava muitas histórias a ele, descobrindo juntos que seus sintomas se amenizavam devido essa liberdade para falar. Procedimento este que ficou conhecido como a cura pela fala, como função o processo de catarse. Anna O. teve seu momento de cura pela fala quando, passando por um período de hidrofobia, ela se recorda que havia visto sua dama de companhia inglesa de quem não gostava, deixar que um cãozinho bebesse de um copo. Quando o nojo reprimido veio a tona, a hidrofobia desapareceu. Dessa forma, todos os sintomas, as contrações paralisantes, as várias alucinações, etc., foram expulsos pela fala. Seus sintomas revelaram ser resíduos de sentimentos e impulsos que ela se sentira obrigada a reprimir. Anna O. se tornou uma pioneira ativista social, líder de causas feministas e de organizações de mulheres judias. Mas Breuer omitiu a verdadeira causa que o fez interromper o tratamento com Anna O. Ele terminou a exposição do caso, apresentando a paciente como liberta de seus sintomas e afirmando que o término do tratamento ocorreu devido ao desejo de Anna O. de encerrá-lo por motivos de mudança. Não é o que afirma Luiz Alfredo Garcia-Rosa quando escreve que "o que motivou o término do tratamento foi um fenômeno que, apesar de ser hoje em dia bastante conhecido, impossibilitou Breuer de continuar a relação terapêutica com Anna O.: o fenômeno da transferência e da contratransferência (1999, p. 39).

    Para Breuer, o fato de ele falar de sua paciente com uma freqüência acima do comum, não lhe parecia indício de nenhum envolvimento emocional. A mulher do médico se tornou triste e ciumenta por escutá-lo e percebê-lo empolgado com sua paciente. Breuer, porém, percebendo o que estava se passando, perturbou-se e resolveu encerrar o tratamento. Anna O., sabendo de sua decisão, desenvolve uma de suas piores crises. A paciente apresentava contrações abdominais de uma crise de parto histérica. Breuer foi chamado para consultá-la e quando ela o viu disse que seu filho estava chegando. Breuer atendeu Anna O. e a hipnotizou livrando-a da crise. No outro dia, Breuer viaja com sua esposa de férias para Veneza. Dessa forma, Freud conclui que a excitação emocional que se encontrava por trás dos sintomas neuróticos era de natureza sexual e conflitiva. No decorrer de suas pesquisas, Freud vai dando uma importância cada vez maior a sexualidade, tanto para a compreensão da neurose como para a compreensão do indivíduo normal. Ele escreve, em seu trabalho Um caso de histeria: “Se é verdade que as causas das perturbações histéricas devem ser encontradas nas intimidades da vida psicossexual dos pacientes, e que os sintomas histéricos são a expressão de seus desejos mais secretos e reprimidos, então a elucidação completa de um caso de histeria implica certamente a revelação dessas intimidades e a divulgação desses segredos. (Freud, 1972, pp. 5-6)” 

    Referências (utilizadas por Belintani, 2003) Araújo, M. I. (2000, Junho). Do amor e outros demônios. paroxismo, exorcismo e desamparo no romance de Gabriel García Márquez. Pulsional: Revista de Psicanálise, 13 (134), 5-15. [ Links ] CID-10. (1993). Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. [ Links ] Estevam, C. (1995). Freud. (2a ed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra. [ Links ] Ferreira, A. B. H. (1988) Novo dicionário básico da Língua Portuguesa Folha/Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. [ Links ] Freud, S. (1974). Estudos sobre a histeria (Edição Standard Brasileira da Obras Completas e de Sigmund Freud, Vol. 2). Rio de Janeiro: Imago. [ Links ] Freud, S. (1972). Um caso de histeria. (Edição Standard Brasileira da Obras Completas e de Sigmund Freud, Vol. 7). Rio de Janeiro: Imago. [ Links ] Garcia, M. J. C. (Junho, 2000). E o verbo se fez carne (pp. 29-33). Trabalho apresentado à XI Jornada do Centro de Trabalho em Psicanálise. Curitiba, PR. [ Links ] Garcia-Rosa, L. A. (1999). Freud e o inconsciente (16a ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. [ Links ] Gay, P. (1989). Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras. [ Links ] Grande Dicionário Larousse Cultural da Língua Portuguesa. (1994). São Paulo: Nova Cultural. [ Links ] Kaplan, H. I., Sadock, B. J., & Grebb, J. A. (1997). Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. (7a ed.). Porto Alegre, RS: Artes Médicas. [ Links ] Laplanche, J., & Pontalis, J. B. (1992). Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Fontes. [ Links ] Mansur, A., & Vicária, L. (2003, 28 Abril). O exorcismo é a atração da noite. Época, São Paulo, (258), 68-74. [ Links ] Márquez, G. G. (1994). Do amor e outros demônios. (2a ed.) Rio de Janeiro: Record. [ Links ] Moore, B. E., & Fine, B. D. (1992). Termos e conceitos psicanalíticos. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. [ Links ] Ramadam, Z. B. A. (1985). A histeria. São Paulo: Ática. [ Links ] Roudinesco, E., & Plon, M. (1998). Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. [ Links ] Rothgeb, C. L. (2001). Sigmund Freud: chaves-resumo das obras completas (Guia de Consulta Rápida dos 23 Volumes da Edição Standard). São Paulo: Atheneu, 2001. [ Links ]