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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Ideações e tentativas de Suicídio em Adolescentes com Práticas Sexuais Hetero e Homoeróticas.

  O Artigo...

  • buscou conhecer as associações entre orientação sexual e ideações e tentativas de suicídio.
  • evidenciou-se que os não heterossexuais têm mais chances de pensarem e tentarem suicídio, comparativamente aos heterossexuais. 
  •  dentre o grupo de adolescentes que se assumiram não heterossexuais, os que estão mais vulneráveis são aqueles que se autodefiniram bissexuais e “outros”, os quais constituem o grupo de pessoas menos assumidas, dentre os não heterossexuais.
  • constatou-se que os respondentes apresentam diversas opiniões e valores homofóbicos, sexistas e heterocentrados, o que revela ser o espaço escolar, onde se encontram esses jovens não heterossexuais, bastante carregado de posicionamentos discursivos discriminatórios.
  •  a questão do suicídio é uma problemática de saúde pública
  •  jovens não heterossexuais necessita de abordagens específicas para a prevenção e de atenção relativas a essa conduta.
  •  estudos sobre as homossexualidades não desconsideram as implicações das normas sexuais na construção das identidades lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBTs)
Segundo Katz (1996) e Spencer (2004) a Heterossexualidade...

  •   passou a ser sinônimo de normalidade apenas em fins do século XIX, quando se construiu o discurso de que ela seria a forma ideal de felicidade amorosa e erótica, em oposição à homossexualidade. 
  •  tornou-se referência legítima dos desejos, ideais, princípios e valores (heteronormatividade)um sentimento de superioridade em relação a todas as outras manifestações plurais das sexualidades (heterossexismo)
Cardoso (2003) - Heterossexismo...

  • assume que o heterossexismo é um mito e, como tal, uma inverdade que “explica o mundo do desejo e do amor e, principalmente, [ele] garante a estabilidade das coisas
  • – o heterossexismo justifica uma ordem moral intocável; intocável porque não é questionada, não é avaliada; é aceita como um mito, uma verdade óbvia, natural e universal.
Moreno (1999) e Welzer-Lang (2001) - Sexismo...
  • e a suposta superioridade dos homens (biologicamente falando) em relação às mulheres, o qual pode se desdobrar, por exemplo, no machismo. 
Homofobia...
  •  é entendida como o medo ou o descrédito quanto às pessoas homossexuais ou àqueles que são presumidos o serem, bem como a tudo que faça referência aos atributos, esperados para um sexo, encontrados em outro sexo (Welzer-Lang, 2001). Segundo Tin (2003)
  • pode igualmente se voltar à própria pessoa homossexual, já que imprime sobre o sujeito uma negatividade em relação à homossexualidade e às pessoas homossexuais (Eribon, 2008)
  •  é um dispositivo de controle, no sentido foucaultiano (Foucault, 1988)
  • busca afastar todo e qualquer questionamento ou desestabilização da naturalização da norma(lidade) da conduta heterossexual, fundando, dessa forma, bases para o reforço do binarismo dos gêneros, o qual se aprende (Clauzard, 2002)
  • promove uma percepção negativa e homogeneizada da homossexualidade, no campo social, que resulta, no campo individual, em uma homofobia interiorizada.
Estigma....
  •  pode ser considerado como dispositivo de controle 
  • tem por objetivo  a manutenção, em alguns grupos que exibem uma diferença indesejável, do sentimento de menosvalia social imputado a eles
  •  determina inexoravelmente a sua desqualificação como Sujeitos de Direito que ao mesmo tempo que vêem negada a sua cidadania, negam-se a conquistá-la.
  • O registro negativo imputado pelo estigma provoca o que Erving Goffman descreveu como identidade deteriorada. (1988).
Borrillo (2000) aponta que as pessoas homossexuais são vitimizadas do seguinte modo: 

1) Os homens homossexuais são vitimizados, pois, em sendo homo, se “igualam” às mulheres na posição de eventual receptor do pênis. Logo, são vistos como “efeminados”, deixando de fazer parte do universo viril. Por isso, o estereótipo de que todos os homossexuais masculinos são “mulherzinhas”, “desmunhecados” e/ou “maricas”. 

2) De outro lado, as mulheres homossexuais são vitimizadas, já que, em sendo homo, supostamente deixam de cumprir sua função de “fêmea” reprodutora dos filhos “de um macho”, e não são aceitas no universo viril, ainda que emasculadas, pois não possuem o pênis. Em acréscimo, ao se identificarem enquanto lésbicas, assumem uma postura ativa em relação ao seu desejo sexual. Como tal atividade é exclusiva do universo masculino, elas são rechaçadas pelos homens e pelas outras mulheres, pois quebraram a barreira do silêncio em relação à suposta passividade feminina.

Blumenfeld (1992), Isay (1998) e Hardin (2000) assinalam que tais efeitos englobam: 

1) Negação da sua orientação sexual (do reconhecimento das suas atrações emocionais) para si mesmo e para os outros; 
2) Tentativas de mudar a sua orientação sexual; 
3) Sentimento de que nunca se é “suficientemente bom”, o qual conduz à instauração de mecanismos compensatórios, como, por exemplo, ser excessivamente bom na escola ou no trabalho (para ser aceito); 
4) Baixa autoestima e imagem negativa do próprio corpo, depressão, vergonha, defensibilidade, raiva e/ou ressentimento – o que pode levar ao suicídio já em tenra juventude;
 5) Desprezo pelos membros mais “assumidos” e “óbvios” da comunidade LGBT; 
6) Negação de que a homofobia é um problema social sério; 
7) Projeção de preconceitos em outro grupoalvo (reforçados pelos preconceitos já existentes na sociedade);
8) Tendência de tornar-se psicológica ou fisicamente abusivo, ou permanecer em um relacionamento abusivo; 
9) Tentativas de se passar por heterossexual, casando-se, por vezes, com alguém do sexo oposto, para ganhar aprovação social ou na esperança de “se curar”; 
10) Práticas sexuais não seguras e outros comportamentos autodestrutivos e de risco (incluindo a gravidez e o de ser infectado pelo vírus HIV); 
11) Separação de sexo e amor e/ou medo de intimidade, capaz de gerar até mesmo um desejo de ser celibatário(a); 
12) Abuso de substâncias (incluindo comida, álcool, drogas e outras).

Epidemiologia de Suicídio em Adolescentes independentemente de  orientação e ou identidade sexual
  • No Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Brasil, 1995), Art. 2º, considera-se “criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade”.
  • Para a Organização Mundial de Saúde (WHO, 1986) entende como adolescente o indivíduo que possui entre 10 (dez) e 20 (vinte) anos de idade.
  •  o período da adolescência tem como característica biológica a puberdade, a qual traz consigo a maturação sexual ocorrente da mesma forma, universalmente, em meninos e meninas.
  • nesse período, o(a) adolescente irá construir sua identidade tendo como medida os referentes coletivos e não apenas os de seu núcleo familiar de origem
  • há uma busca do(a) adolescente em adotar valores e comportamentos visando à aceitação pelo grupo ao qual pertence.
  • esse período de maior desenvolvimento e amadurecimento biológico e psicológico, o(a) adolescente se torna mais susceptível a conflitos emocionais.
  •  primeiras pressões sociais, que, articuladas à realidade emocional dos envolvidos, podem contribuir para alterações de comportamento e surgimento de quadros depressivos, os quais, se não forem superados, correm risco de desembocar em ideações e tentativas de suicídio.
O Suicídio...
  •  Marcus (1995) e Cassorla (1998a; 1998b), o suicídio – ato voluntário de pôr fim à própria vida –, para muitas pessoas, pode ser a última alternativa para lidar com a tensão resultante da não aceitação de desejos (sexuais ou não), no campo social. 
  • Trata-se, portanto, de um ato intimamente ligado ao contexto onde ele se produz (Barros, 1998). 
  • Segundo Zwahr-Castro (2005), apesar de as taxas de suicídio permanecerem relativamente estáticas, nos últimos sessenta anos, nos Estados Unidos, entre os adolescentes ocorre uma maior preocupação com essas taxas por dois motivos: 

a) a taxa de suicídio, nessa faixa etária, quadriplicou nos últimos cinquenta anos; e

 b) o suicídio contagioso ou os grupos de suicídio parecem ser mais comuns entre os jovens que entre outros segmentos da população.

  • Entre os adolescentes, o suicídio é a terceira causa de morte, sendo que 4.000 jovens tiraram a própria vida, em 2001

Suicídio de Adolescentes e Orientação Sexual Homossexual: epidemiologia e casuística...

  • O ato de atentar contra a própria vida já foi entendido como pecado, crime, liberdade individual, efeitos das condições sociais (Durkheim, 1897[1969];
  •  Ariès, 1977), chegando hoje à visão contemporânea de psicopatologia ou condicionamento genético.
  • entendem-se as ideações e tentativas de suicídio de adolescentes “não heterossexuais” como efeitos dos processos homofóbicos e não uma decorrência de processos patológicos individuais. 
  • procura-se compreender o quanto o estigma de se descobrir “não heterossexual”, para si mesmo e/ou para os outros, contribui para levar um(a) adolescente ao ato de pensar e/ou de atentar contra a sua própria vida.
  • EUA -  os jovens gays são de duas a três vezes mais propensos a tentar o suicídio comparativamente aos jovens heterossexuais, compreendendo o total de 30% anual de suicídios juvenis.
 Foram investigados quatro fatores de risco ao suicídio:
  •  pensamentos sobre a própria morte, 
  • desejo de morrer, 
  • pensamentos sobre cometer suicídio 
  • tentativa de suicídio.

 Pesquisas realizadas no Brasil...

  • Entre 2.256 (98,8%) respondentes, 484 estudantes declararam já terem pensando em suicidar-se, o que representa uma prevalência de 21,5%
  • Independentemente da orientação sexual dos respondentes, as meninas (359) apresentaram uma prevalência maior, com 74,2%, de pensamentos suicidas, que os meninos 25,8% (125)
  •  Para ambos sexos, independentemente da orientação sexual, esse fato se deu, na maioria das vezes, entre os 14 e os 16 anos, 312 (67,5%)
  • A prevalência de pensamentos suicidas entre os heterossexuais foi de 20,7%. 
  • A prevalência de pensamentos suicidas entre os não heterossexuais, essa prevalência foi de 38,6%

Os adolescentes tomados por desejos eróticos em relação a pessoas de mesmo sexo biológico – neste estudo, denominados “não heterossexuais” 
  • sentem medo da exclusão e da injúria (Verdier e Firdion, 2003; Eribon, 2008);
  • se afastam da sociedade, tornando-se vulneráveis à depressão e, em alguns casos, a pensamentos e tentativas de suicídio (SavinWilliams, 1990, 1998; Taquette e col., 2005)
Como enfatiza Castañeda (2007, p. 91)...
  •  todas as crianças são criadas por seus pais a partir de um modelo heterossexista, que as faz crer que um dia irão se casar e formar uma família: “[...] é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral”
  •  Dar-se conta que isso, provavelmente, não acontecerá e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante.
Como isso vai afetar psicologicamente o indivíduo? Elizabeth Kübler-Ross (1969), o(a)s psicólogo(a)s envolvido(a)s nos Estudos de Gênero e LGBT (Castañeda, 2007), dirão que...
  • na pessoa que toma consciência de sua homossexualidade, encontrar-se-á a negação (“Talvez não seja verdade.”), 
  • a raiva (“Por que eu?”), 
  • a barganha (“Farei de tudo para evitar isso. Vou compensar esse ‘defeito’, sendo o melhor...”), 
  • a depressão (“Nunca serei feliz.”), 
  • a aceitação (“Sou o que sou e não preciso nem me esconder, nem tentar agradar ninguém para ser aceito.”). Quando dá certo.
O suicídio em adolescentes não heterossexuais...
  • está acompanhado de certa desesperança e negação interna da sexualidade, que costumam ser reforçadas pela sociedade heteronormativa em que vivemos (Oliveira, 1998).
  •  a pressão social vai acentuar um estado de melancolia no sujeito, que dificultará que ele faça o luto da heterossexualidade
  •  a construção de uma identidade sexual na qual a pessoa se reconheça e se sinta autorizada a expressar seus desejos, ainda que o contexto em que viva não seja propício. 
O(a)s jovens bissexuais e/ou os que ainda não se definiram estão em maior risco. 
  • Isso faz supor que, em uma sociedade onde a organização das relações entre os gêneros se dá a partir de uma lógica binária de formatação da sexualidade, de fato, aquele(a)s que se sentem atraído(a)s por ambos os sexos podem mesmo encontrar maior dificuldade de compreensão e estabelecimento de parcerias amorosas, já que tal sujeito é visto ou como “indeciso”, “oportunista” ou “imaturo” (Castañeda, 2007)
  • a negociação do “sair do armário”, isto é, revelar-se LGBT para si, familiares, amigos/as e escola, passa por situações diversas e implica respostas distintas, uma vez que, em cada lugar, a homossexualidade terá um valor, uma representação, uma consequência. 
  •  A saúde sexual é concomitante à saúde mental.
  • e, a bissexualidade é bem mais incompreendida do que as identidades: gay e lésbica, que há tempos são publicitadas pelos movimentos sociais LGBT.
  •  o(a)s jovens não heterossexuais estão mais vulneráveis
Referências
FILHO, Fernando Silva Teixeira; Rondini, Carina Alexandra. Ideações e tentativas de Suicídio em Adolescentes com Práticas Sexuais Hetero e Homoeróticas.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Lesbofobia e Trabalho

  •   analisa  as violências simbólicas nas vivências de lésbicas com destaque para o trabalho.
  • discute  sobre a lesbofobia na sociedade e trabalho, bem como os estereótipos e a invisibilidade que envolvem essa identidade.
  • as violências simbólicas são extremamente sutis e ocorrem como no caso da internalização da heteronormatividade e do silêncio acerca da sexualidade, avisos com normas de comportamento, comentários e indiretas que remetem aos estigmas associados às lésbicas em seu cotidiano. 
Sexualidade...
  • A sexualidade é parte de um debate político que influencia a estruturação das hierarquias sociais. Ao longo da história, as sexualidades foram e ainda são objetos de disputa, meios de controle, de violência e de libertação (Prado & Machado, 2008).
  •  Considera-se a sexualidade no âmbito da cultura, não existindo uma sexualidade natural nem um meio de se praticar a sexualidade mais natural do que outro, existindo construções sociais e históricas dela que implicam em formas de poder e dominação (Adelman, 2000; Butler, 2003).
  •  Destarte, a experiência de mulheres lésbicas seria diferente pelas especificidades associadas ao machismo e ao heterossexismo, bem como devido aos estereótipos que são construídos em  torno delas (Leonel, 2011; Toledo & Teixeira, 2011; Heintz, 2012).
Homossexualismo...
  •   É evidente nas pesquisas as variadas dificuldades que homossexuais experimentam no trabalho relacionadas com a discriminação. 
  •   discussão acerca de mulheres lésbicas na sociedade, no trabalho e nas organizações, pela ótica da violência simbólica. 
Violência Simbólica e Lesbofobia...
  • Embora a violência sempre tenha estado presente, não se deve aceitá-la como um aspecto inevitável da humanidade (Dahlberg & Krug, 2006; Oliveira & Martins, 2007)
  •   esse tema se mostra complexo e amplo, alguns estudos voltados para as organizações e trabalho tratam da violência conforme o assédio moral (Hyrigoyen, 2005; Freitas, 2007), o assédio sexual (Freitas, 2001), a neurose narcisista (Paes de Paula, 2003) e até mesmo em suas variadas manifestações como a física, psíquica, social, estrutural e simbólica (Faria & Meneghetti, 2002).
  • A violência simbólica considerando que essa perpassa o cotidiano social e laboral de mulheres lésbicas (Bourdieu, 2003; Rosa & Brito, 2009; Carrieri, Aguiar & Diniz, 2013).
  • Essa violência é caracterizada por Bourdieu (2003:7) como uma violência “suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento, ou, em última estância, do sentimento”.
Relação entre violência simbóliuca e poder simbólico, segundo Bourdieu (2002:14)
  •  poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, desse modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo, poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica) graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.
Relação entre a violência simbólica e as estruturas de dominação
  • são historicamente construídas, assim agentes como as instituições, as famílias, a Igreja, a Escola, o Estado e os homens - por meio da violência física e simbólica - contribuem para a reprodução das estruturas de dominação, de tal modo que o dominado internaliza o ponto de vista do dominante, sendo essa relação de dominação naturalizada.
  • essa relação de dominação naturalizada como "quando os esquemas que ele põe em ação para se ver e se avaliar, ou para ver e avaliar os dominantes (elevado/baixo, masculino/feminino, branco/negro etc.) resultam da incorporação de classificações assim naturalizadas, de que seu ser social é produto" (Bourdieu, 2003:47).
Relação entre violência simbólica e minorias, segundo Rosa & Brito (2009:641)
  •  ressaltam que ela atua conservando os padrões dominantes e preservando a estabilidade do campo organizacional, posto que intenta garantir a dominação daqueles possuidores de posições de destaque nesse espaço e, assim, subjugar as minorias que se inserem no mesmo espaço.
  • a doxa, como cultura dominante, busca inculcar nas minorias como homossexuais a cultura oficial violentando seus habitus primários como um processo pedagógico e subjetivo legítimo "em prol de uma nova disposição durável, de um novo espírito, um novo modo de pensar (ethos) e agir (héxis), significa estar submetido à violência simbólica, subjacente à construção de um novo habitus" 
Relação à dominação simbólica e os homossexuais...
  • nota-se a discriminação sofrida pelos mesmos, além da estigmatização e a invisibilidade a que estão submetidos
  • Segundo Bicalho, Diniz, Carrieri e Souza (2011) em estudo com homossexuais masculinos, a violência simbólica atua no sentido de que a sexualidade seja um elemento desvalorizador de profissionais homossexuais que buscam inclusive esconder suas sexualidades para lidar e evitar a discriminação por se distanciarem de um modelo hegemônico.
  • quando o trabalhador homossexual busca sua expressão no trabalho, tem que lidar com a competitividade e produtividade, mas também com políticas que reafirmam padrões heteronormativos e desvalorizam a diferença, um contexto que pode gerar adoecimento e sofrimento psíquico (Carrieri, Aguiar & Diniz, 2013).
A Lesbofobia...
  • envolve considerar a dominação masculina na sociedade (Bourdieu, 2003)
  • pode assumir várias formas sutis ou não diretas, sendo seu extremo identificado nas agressões físicas ou como no crescimento do estupro corretivo, prática que ocorre para que "aprendam" a gostar de homens e se tornem "mulheres de verdade" (Leonel, 2011), adequadas ao contexto heteronormativo que presume que todos são ou deveriam ser heterossexuais (Miskolci, 2012).
  • Toledo e Teixeira (2011) notam que estigmas e estereótipos associados à lesbianidade a demonstram ora com o caráter de aberração ora com o de ilegitimidade, evidenciando uma perspectiva na qual são encaradas como espetáculos pornográficos ou as demonstrando como "machonas", ou ainda heterossexuais frustradas, que não desejadas por homens terminam se relacionando com mulheres como uma segunda alternativa.
  • A condição lesbiana pode ser considerada mais desfavorável ao ser comparada com outras formas de homossexualidade, pois "[...] mesmo dentro de um movimento que comporta 90% de gays e 10% de lésbicas e é ainda marcado por uma forte tradição masculinista" (Bourdieu, 2003:148). 
  •  Mello (2005) assinala que o surgimento de uma identidade lésbica, além de visar proporcionar às mulheres homossexuais melhor visibilidade, busca afirmar suas especificidades em relação aos homens homossexuais.
  • há lésbicas que buscam um movimento identitário próprio em decorrência do machismo de alguns gays, apesar de reconhecerem alianças com os mesmos.
lésbicas brasileiras começam um movimento independente de outras categorias LGBT's...
  • buscam discutir suas especificidades e também pelas desigualdades que estão dentro do próprio movimento como quanto ao machismo e racismo (Prado & Machado, 2008). 
Realidade das Lésbicas no Trabalho e nas Organizações...
  • não seria semelhante a de homossexuais masculinos pela questão do sexismo que tem beneficiado os homens em detrimentos das mulheres nas organizações.
  •  seriam diferentes daquelas das mulheres heterossexuais, haja vista o heterossexismo que assume a heterossexualidade como norma hegemônica (Butler, 2003; Irigaray & Freitas, 2011; Heintz, 2012)
  • e pode ir em direção à invisibilização e estigmatização dessas trabalhadoras como manifestação de violência simbólica.
  • No trabalho, elas se deparam com a lesbofobia e com a falta de apoio social e compreensão a respeito de suas sexualidades. 
  • muitas permanecem no armário e em uma situação de invisibilidade, tendo como conseqüência o isolamento social de muitas delas.
  •  mulheres lésbicas podem ser vítimas de violência simbólica pela relação desta com o gênero e a sexualidade na sociedade e no trabalho, e que esse tipo de violência pode se ocorrer em relação aos estereótipos e a invisibilidade que estão associadas à experiência dessas mulheres por se distanciarem de um modelo heteronormativo que pressupõe a coerência entre desejos, identidade de gênero, genitália e prática sexual (Butler, 2003, 2004)
Considerações finais...
  • Em um contexto amplo, as manifestações de violência simbólica estão associadas à uma ilusória aceitação da homossexualidade feminina ao mesmo tempo vista como objeto de fetiche masculino, pelo preconceito diante dos relacionamentos lésbicos, pela invisibilidade atribuída à vivência dessas mulheres e pela não aceitação daqueles que fogem ao padrão heterossexual valorizado.
  • as violências simbólicas experimentadas pelas trabalhadoras lésbicas são extremamente sutis, inclusive tendo em vista que a maioria delas diz não ter vivenciado nenhuma situação de discriminação direta ou cruel no trabalho. 
  • Esses estigmas demonstram a homossexualidade feminina associada ao que foge ao padrão heteronormativo socialmente estabelecido, também evidenciam as lésbicas como objetos do desejo masculino ou até mesmo como mulheres que não tiveram um contato profundo com algum homem.
  •  A invisibilidade e o silenciamento a que estão submetidas ou aos quais se submetem revelam uma realidade paradoxal, pois mesmo sendo concomitantemente uma estratégia para se lidar com a discriminação também é um meio de perpetuação do tabu e da negação das lesbianidades.
Referências:
BICALHO; NETO, Caproni, 2017. Holos. Violência Simbólica, Lesbofobia e Trabalho: um estudo em Juiz de Fora.17/04/2017.


 

domingo, 27 de setembro de 2020

Ideações e Tentativas de Suicídio em Adolescentes com Práticas Sexuais Hetero e Homoeróticas

 

  •  Pesquisa aplicada a adolescentes com idade entre 12 e 20 anos.
  • Pretendia conhecer as associações entre orientação sexual e ideações e tentativas de suicídio.
  •  Conclui-se que a questão do suicídio é uma problemática de saúde pública e que a população de jovens não heterossexuais necessita de abordagens específicas para a prevenção e de atenção relativas a essa conduta.
HETEROSSEXUALIDADE
  • a heterossexualidade passou a ser sinônimo de normalidade apenas em fins do século XIX, , quando se construiu o discurso de que ela seria a forma ideal de felicidade amorosa e erótica  (Katz, 1996 e Spencer, 2004).
  • a heterossexualidade tornou-se referência legítima dos desejos, ideais, princípios e valores (heteronormatividade), produzindo, assim, um sentimento de superioridade em relação a todas as outras manifestações plurais das sexualidades (heterossexismo).(r Eribon e Haboury, 2003)
 Princípios desconstrucionistas das teorias pós-estruturalistas (Higgins, 1993):
  • Cardoso (2003) assume que o heterossexismo é um mito e, como tal, uma inverdade que “explica o mundo do desejo e do amor, além de garantir a estabilidade das coisas.
  •  o heterossexismo justifica uma ordem moral intocável; intocável porque não é questionada, não é avaliada.  é aceita como um mito, uma verdade óbvia, natural e universal.
  • esta ordem moral heterossexista sustenta o edifício econômico e político que questionamos”
SEXISMO
  • É uma suposta superioridade dos homens (biologicamente falando) em relação às mulheres e, basicamente, sobre tudo o que diz respeito ao feminino
  • Desdobra-se para o machismo, que se nutre do poder dos homens e sobre tudo que diz respeito ao feminino
  • Essa arbitrariedade legitima a violência contra a mulher.
HOMOFOBIA
  • é o medo ou o descrédito quanto às pessoas homossexuais ou àqueles que são presumidos o serem, bem como a tudo que faça referência aos atributos, esperados para um sexo, encontrados em outro sexo (Welzer-Lang, 2001). 
  • o termo é empregado para significar um processo específico de violência física, simbólica e/ou social contra o(a)s homossexuais.
  • A homofobia é um dispositivo de controle, no sentido foucaultiano (Foucault, 1988), que busca afastar todo e qualquer questionamento ou desestabilização da naturalização da norma(lidade) da conduta heterossexual
  • Tem  finalidade de oprimir todo(a)s aquele(a)s que ousam sentir, experimentar ou dizer de suas orientações e/ou identidades sexuais diversas da heterossexualide.
  •  promove uma percepção negativa e homogeneizada da homossexualidade, no campo social, que resulta, no campo individual, em uma homofobia interiorizada (estigma)
Borrillo (2000) aponta que as pessoas homossexuais são vitimizadas do seguinte modo:

1) Os homens homossexuais são vitimizados, pois, em sendo homo, se “igualam” às mulheres na posição de eventual receptor do pênis. Logo, são vistos como “efeminados”, deixando de fazer parte do universo viril. Por isso, o estereótipo de que todos os homossexuais masculinos são “mulherzinhas”, “desmunhecados” e/ou “maricas”.

 2) De outro lado, as mulheres homossexuais são vitimizadas, já que, em sendo homo, supostamente deixam de cumprir sua função de “fêmea” reprodutora dos filhos “de um macho”, e não são aceitas no universo viril, ainda que e masculadas, pois não possuem o pênis. 

Em acréscimo, ao se identificarem enquanto lésbicas, assumem uma postura ativa em relação ao seu desejo sexual. Como tal atividade é exclusiva do universo masculino, elas são rechaçadas pelos homens e pelas outras mulheres, pois quebraram a barreira do silêncio em relação à suposta passividade feminina.

Blumenfeld (1992), Isay (1998) e Hardin (2000) assinalam que tais efeitos englobam:

 1) Negação da sua orientação sexual (do reconhecimento das suas atrações emocionais) para si mesmo e para os outros; 

2) Tentativas de mudar a sua orientação sexual; 

3) Sentimento de que nunca se é “suficientemente bom”, o qual conduz à instauração de mecanismos compensatórios, como, por exemplo, ser excessivamente bom na escola ou no trabalho (para ser aceito); 

4) Baixa autoestima e imagem negativa do próprio corpo, depressão, vergonha, defensibilidade, raiva e/ou ressentimento – o que pode levar ao suicídio já em tenra juventude; 

5) Desprezo pelos membros mais “assumidos” e “óbvios” da comunidade LGBT; 

6) Negação de que a homofobia é um problema social sério;

7) Projeção de preconceitos em outro grupoalvo (reforçados pelos preconceitos já existentes na sociedade).

8) Tendência de tornar-se psicológica ou fisicamente abusivo, ou permanecer em um relacionamento abusivo; 

9) Tentativas de se passar por heterossexual, casando-se, por vezes, com alguém do sexo oposto, para ganhar aprovação social ou na esperança de “se curar”; 

10) Práticas sexuais não seguras e outros comportamentos autodestrutivos e de risco (incluindo a gravidez e o de ser infectado pelo vírus HIV); 

11) Separação de sexo e amor e/ou medo de intimidade, capaz de gerar até mesmo um desejo de ser celibatário(a); 

12) Abuso de substâncias (incluindo comida, álcool, drogas e outras).

Epidemiologia de Suicídio em Adolescentes Independentemente de Orientação e/ou Identidade Sexual

O Adolescente

  • A adolescência é um período do desenvolvimento humano que possui diferentes interpretações para cada cultura e momentos históricos (Santos, 1996).
  • No Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Brasil, 1995), Art. 2º, considera-se “criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre 12 (doze) e 18 (dezoito) anos de idade” , enquanto a Organização Mundial de Saúde (WHO, 1986) entende como adolescente o indivíduo que possui entre 10 (dez) e 20 (vinte) anos de idade.
  • O adolescente em adotar valores e comportamentos visando à aceitação pelo grupo ao qual pertence.
  •  tornam-se mais susceptível a conflitos emocional
  • passa a entrar aos poucos no universo adulto, recebendo as primeiras pressões sociais, que, articuladas à realidade emocional dos envolvidos, podem contribuir para alterações de comportamento e surgimento de quadros depressivos, os quais, se não forem superados, correm risco de desembocar em ideações e tentativas de suicídio.
O suicídio
  • Marcus (1995) e Cassorla (1998a; 1998b), o suicídio – ato voluntário de pôr fim à própria vida, para muitas pessoas, pode ser a última alternativa para lidar com a tensão resultante da não aceitação de desejos (sexuais ou não), no campo social. 
  • Ato intimamente ligado ao contexto onde ele se produz (Barros, 1998). 
  •  Arenales e colaboradores (2002) salientam a existência de uma tendência de aumento dos suicídios em adolescentes, a partir dos anos 1950, tendo as taxas de suicídio nesse grupo triplicado desse período até os anos 80, estabilizando-se posteriormente. 
  • EUA tem como maior preocupação com essas taxas por dois motivos: 
          a) a taxa de suicídio, nessa faixa etária, quadriplicou nos últimos cinquenta anos; 
          b) o suicídio contagioso ou os grupos de suicídio parecem ser mais comuns entre os jovens que entre outros segmentos da população. 
  •  os pensamentos sobre o suicídio são ainda mais comuns que as tentativas ou os suicídios efetivados
No Brasil, os dados de DATASUS de 2002 apontam que:
  • Entre 15 a 19 anos, a taxa de mortalidade por suicídio é de 4 para homens e 2 para mulheres em 100.000 habitantes e, no que tange à internação, a estimativa era de 583,3, para o ano de 2003. 
  • Para o Estado de São Paulo, a taxa é 7, enquanto, para a capital, é de 1,5 por 100.000 habitantes. 
  • Considerando o sexo do indivíduo independente da faixa etária, na capital paulista, tem-se 6.4 homens e 1,5 mulheres por 100.000 habitantes (D’Oliveira, 2005)
  • os homens, ao tentarem suicídio, têm mais “sucesso” (arma de fogo) comparativamente às mulheres,(medicamentos, enforcamento ou estrangulamento) por conta da tipologia do suicídio. embora as mulheres tentem mais.
  •  o suicídio como ocupando a 6ª posição entre as principais causas de óbito entre jovens de 15 a 24 anos.
Suicídio de Adolescentes e Orientação Sexual Homossexual: epidemiologia e casuística
  •  entendem-se as ideações e tentativas de suicídio de adolescentes “não heterossexuais” como efeitos dos processos homofóbicos e não uma decorrência de processos patológicos individuais.
  • procura-se compreender o quanto o estigma de se descobrir “não heterossexual”, para si mesmo e/ou para os outros, contribui para levar um(a) adolescente ao ato de pensar e/ou de atentar contra a sua própria vida.
  • Pesquisas revelam que adolescentes homossexuais tem maior propensão a tentar suicídio que adolescentes heterossexuais.(Estado de Massachusetts, jovens LGBT 35,3% tentaram suicídio e Jovens Heterossexuais apenas 9,9%.
  • e o suicídio entre homossexuais, particularmente entre adolescentes e jovens adultos, tem sido considerado alto, nos últimos 25 anos.
No Brasil foi feita uma pesquisa entre estudantes do ensino médio, em 2009:;
  • Aplicou-se um questionário de 131 perguntas, na sua maioria fechadas.
  • O questionário possui questões que abordam a identificação pessoal, trajetórias sexuais, homofobia, ideações e tentativas de suicídio e histórico de violência sexual e/ou física.
  • Considerou-se como fator a orientação sexual dos estudantes. As variáveis de desfecho usadas foram: pensamentos e tentativas suicidas, histórico de violência sexual e física. 
  • Entre 2.256 que responderam ao questionário, 484 estudantes declararam já terem pensando em suicidar-se, o que representa uma prevalência de 21,5%.
  • as meninas (359) apresentaram uma prevalência maior, com 74,2%, de pensamentos suicidas, que os meninos 25,8% (125) 
  •  Para ambos sexos, independentemente da orientação sexual, esse fato se deu, na maioria das vezes, entre os 14 e os 16 anos, 312 (67,5%)
  • A prevalência de pensamentos suicidas entre os heterossexuais foi de 20,7%. Entre os não heterossexuais, essa prevalência foi de 38,6%.
  • Em 480 adolescentes que disseram ter pensado em se matar, 442 são heterossexuais. Dentre estes, 137 (31,0%) tentaram se matar.
  • , evidenciouse que os não heterossexuais têm mais chances de pensar e tentar suicídio, comparativamente aos heterossexuais
Os adolescentes tomados por desejos eróticos em relação a pessoas de mesmo sexo biológico – neste estudo, denominados “não heterossexuais” –, sentem medo da exclusão e da injúria (Verdier e Firdion, 2003; Eribon, 2008), se afastam da sociedade, tornando-se vulneráveis à depressão e, em alguns casos, a pensamentos e tentativas de suicídio (SavinWilliams, 1990, 1998; Taquette e col., 2005). 

O suicídio em adolescentes não heterossexuais está acompanhado de certa desesperança e negação interna da sexualidade, que costumam ser reforçadas pela sociedade heteronormativa em que vivemos (Oliveira, 1998). 

- Qual é a duração desse processo de luto? Segundo Castañeda (2007), para certas pessoas, ele nunca tem fim – e talvez seja a diferença mais importante entre os homossexuais “felizes” e aqueles que nunca terminam de fazer o luto da heterossexualidade, que é imposta como ideal de comportamento sexual.  É importante tomar consciência desse luto, que pode durar indefinidamente ou ressurgir sob formas diferentes.

REFERÊNCIAS:
Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-12902012000300011&script=sci_arttex