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domingo, 7 de outubro de 2018

Sapiens em outros continentes - Revolução Cognitiva

Harari, em seu livro Sapiens uma breve historia da humanidade, reflete como os humanos saíram do continente Afro-Asiático, onde viviam antes da Revolução Cognitiva. 

Afirma-se que eles povoaram ilhas atravessando curtas distâncias a nado ou em jangadas improvisadas, o que dificultou que muitos seres vivos migrassem para ouros continentes.

O Planeta Terra era dividido em ecossistemas distintos, cada um composto por um conjunto singular de animais e plantas, e que o Homo Sapiens esteve prestes a por fim nessa exuberância que é a Natureza.

Sua primeira conquista teria sido  a Austrália a cerca de 45 mil anos atrás. Há várias teorias a respeito mas parece mais coerente a teoria de que os sapiens teria desenvolvido uma sociedade de marinheiros, e construíram navios transoceânicos  e se tornaram pescadores, comerciantes e exploradores de longa distância, o que teria causado uma transformação em estilo de vida e habilidades sem precedentes. Afinal há evidências sólidas de um comércio marítimo regular entre a Nova Zelândia e Nova Bretanha (Ilhas).

A jornada dos primeiros humanos a Austrália é um dos acontecimentos mais importantes da história, pois foi a primeira vez que um humano conseguiu deixar o sistema afro-asiático. O momento em que o primeiro caçador-coletor chegou à história foi o momento em que o sapiens subiu ao topo da cadeia alimentar, quando se tornou a espécie mais instintiva e mortífera do mundo, seu efeito sobre o meio ambiente foi devastador desde a época. Muitas espécies foram dizimadas ou extintas.

Podem ter tido diversos fatores, inclusive climáticos, como inundações, terremotos, etc, mas o fato é que o sapiens contribuiu pessoalmente para essa transformação do continente australiano. Sabe-se que o clima da Terra está em constante mudanças e transformações mas esse não deve ser considerado um fator isolado para dizimar um continente eximindo o sapiens de suas responsabilidades. Sofreram muitas mudanças na vegetação em virtude do uso do fogo pelos Sapiens.

Os Sapiens foram a primeira e única espécie humana a chegar nos continentes do hemisfério ocidental, há 16 mil anos atrás (14000 a.C.). Os hábitos antigos dos caçadores-coletores diferiram significativamente, entretanto, parece que passaram a viver melhor, mais confortavelmente ao longo dos anos. Sua economia proporcionava a maioria dos indivíduos vidas mais interessantes do que a agricultura e a indústria. Hoje, com a agricultura e a indústria um chinês trabalha durante 10 a 12 longas horas de trabalho. O Sapiens moderno virou acumulador e as coisas já não são mais buscadas para satisfazer as suas necessidades básicas de sobrevivência, mas às suas vontades expressas pelo supérfluo das novidades do mundo moderno. Os caçadores-coletores tinham mais saúde que o sapiens atual, pois sua dieta era variada e saudável, não se entupiam de fasts foods como o sapiens atual.

Sabe-se que o povoamento das Américas não ocorreu sem derramamento de sangue, deixando muitas vítimas de sapiens nativos. As Américas eram um grande laboratório de experimentação evolutiva, um lugar em que os animais e plantas desconhecidos na África e Ásia, haviam evoluído e prosperado.
Os sapiens levou à extinção cerca de metade dos grandes animais do planeta muito antes de os humanos inventarem a roda, a escrita, ou ferramenta de ferro. 

Muito antes da Revolução Industrial, o Homo Sapiens entre todos os seres vivos, já era recordista em levar espécies de plantas e animais à extinção. Harari afirma que "temos a honra duvidosa de ser a espécie mais mortífera no anais da biologia".

sábado, 6 de outubro de 2018

Caçadores-Coletores - Revolução Cognitiva

ENTENDENDO COMO FUNCIONAVA A CABEÇA DOS CAÇADORES-COLETORES

  • Boa parte de nossa história Sapiens viveram como caçadores-coletores, atualmente, trabalham em troca de um salário para comprar mercadorias.
  • Muitas das nossas características sociais e psicológicas foram moldadas durante a fase pre-agrícola.
  • Os caçadores-coletores nos moldou através de nosso DNA um mundo que ainda habitamos. Por isso, nosso cérebro, nossa mente ainda são adaptados para uma vida de caça, porém, em dimensões diferenciadas da era primitiva.
  • A exemplo disso são alimentos doces que eram muito raros. Quando encontravam comiam até onde não dava mais. Esse hábito de comer muito permanece em nosso DNA de tal sorte que hoje a obesidade está matando mais que a fome propriamente dita.(Teoria do Gene guloso)
  • Outro exemplo, os coletores caçadores não viviam em famílias monogâmicas. Mulheres tinham relações sexuais com vários homens, e no sapiens atual vemos altos índices de traição e divórcios, explicando a infidelidade frequente dos dias atuais.
COMO VIVIAM OS SAPIENS ENTRE A REVOLUÇÃO COGNITIVA(70 MIL ANOS ATRÁS) E O COMEÇO DA REVOLUÇÃO AGRÍCOLA (12 MIL ANOS ATRÁS)

  • Caçadores-coletores tinham pouquíssimos artefatos, e estes não eram tão importantes. Hoje o sapiens para apenas se alimentar necessita de prato, garfo, talheres, copos, etc. 
  • Caçadores-coletores se mudavam toda semana, todo mês quando não todo dia. Atualmente o sapiens tem propriedades privadas.
  • As sociedades caçadoras-coletoras que sobreviveram foram influenciadas por sociedades agrícolas e industriais adjacentes, o que pode não ter acontecido há milhões de anos.
  • As sociedades caçadores-coletoras se adaptaram a ambientes de difícil adaptação em função do solo, do frio, etc.
  • Haviam diferentes sociedades coletoras-caçadoras que se diferenciavam pelo idioma, religião, normas e costumes. Viviam em tribos e cada tribo tinha diversos bandos.
  • Com a revolução cognitiva não existe apenas  um único estilo de vida natural, mas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades, várias formas de viver.
  • Membros de um mesmo bando se conheciam intimamente e eram cercados de amigos e parentes durante a vida. Embora disputassem recursos escassos também viviam amigavelmente. As relações de bandos vizinhos eram tão sólidas que se constituíam como uma grande tribo, partilhando a mesma lingua, mitos, normas e valores.
  • A maioria dos bandos viviam se deslocando, em busca de alimentos e, ao explorar nvoas terras, bandos saíam de seu território, e geravam conflitos e disputas. Mas essas migrações foram o motor para a expansão humana pelo mundo.
  • Desenvolveram técnicas para secar, defumar e congelar alimentos.
  • Saiam também em busca de conhecimento, e para isso precisavam um mapa mental do território para não se perderem e poderem retornar.
  • O Conhecimento estava em saber localização, tipos de plantas comestíveis e venenosas, tempo de crescimento, tempestades, fazer uma faca, habilidades necessárias aos coletores-caçadores.
  • Caçadores-coletores dominaram o mundo dos animais, das plantas e objetos à sua volta.
  • Tinham uma nutrição ideal, não havia obesidade e era bastante variada. Hoje agricultores teem um dieta restritiva já que plantam apenas um tipo de cultura.
ESPÍRITOS FALANTES
  • As crenças animistas eram comuns entre os caçadores-coletores.
  • Animismo - é a crença de que praticamente todo lugar, todo animal, toda planta e todo fenômeno natural, tem consciência e sentimentos, e que pode se comunicar diretamente com humanos.
  • Mundo animista tem coisas e objetivos vivos, e entidades imateriais que são os espíritos dos mortos, seres benévolos e malévolos (demônios, fadas, anjos).
  • Com animismo n]ao há barreiras entre seres humanos e qualquer outro ser.
  • Antigos caçadores-coletores eram extremamente violentos e cruéis, com indícios nos fósseis, armas encontradas, etc.

A árvore do conhecimento - Revolução Cognitiva

Especialistas especularem que a ESTRUTURA INTERNA DO CÉREBRO desses sapiens provavelmente era diferente da nossa. Eles se pareciam conosco, mas suas capacidades cognitivasAPRENDIZADO, MEMÓRIA E COMUNICAÇÃO– eram muito mais limitadas. 

A  partir de 70 mil anos atrás, o Homo sapiens bandos de sapiens deixaram a África pela segunda vez, expulsaram os neandertais e todas as outras espécies humanas não só do Oriente Médio como também da face da Terra. 

Em um período incrivelmente curto, os sapiens chegaram à Europa e ao leste da Ásia. Há aproximadamente 45 mil anos, conseguiram atravessar o mar aberto e chegaram à Austrália – um continente até então intocado por humanos. 

O período de 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás testemunhou a invenção de barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas e agulhas (essenciais para costurar roupas quentes). Os primeiros objetos que podem ser chamados de arte e joalheria datam dessa era, assim como os primeiros indícios incontestáveis de religião, comércio e estratificação social.

 Estatueta em marfim de um “homem-leão” (ou “mulher-leoa”) da caverna de Stadel, na Alemanha (c. 32 mil anos atrás).

 O corpo é humano, mas a cabeça é leonina. Este é um dos primeiros exemplos indiscutíveis de arte, e provavelmente de religião e da capacidade da mente humana de imaginar coisas que não existem de fato, produto de uma revolução nas habilidades cognitivas dos sapiens.

SURGEM NOVAS FORMAS DE PENSAR E SE COMUNICAR

O surgimento de novas formas de pensar e se comunicar, entre 70 mil anos atrás a 30 mil anos atrás, constitui a Revolução Cognitiva, a teoria mais aceita afirma que MUTAÇÕES GENÉTICAS acidentais MUDARAM AS CONECXÕES INTERNA DOS SAPIENS, possibilitando que PENSASSEM de uma maneira sem precedentes e se COMUNICASSEM usando um TIPO DE LINGUAGEM totalmente novo. Poderíamos chamá-las de mutações da árvore do conhecimento.

"Todos os animais têm alguma forma de linguagem." 

Mas a linguagem é incrivelmente versátil. Podemos conectar uma série limitada de sons e sinais para produzir um número infinito de frases, cada uma delas com um significado diferente. Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. 

NOSSA LINGUAGEM evoluiu como uma forma de FOFOCA. De acordo com essa teoria, o Homo sapiens é antes de mais nada um animal social. A cooperação social é essencial para a sobrevivência e a reprodução.

Para o sapiens é importante saber quem em seu bando odeia quem, quem está dormindo com quem, quem é honesto e quem é trapaceiro. A quantidade de informações que é preciso obter e armazenar a fim de rastrear as relações sempre cambiantes até mesmo de umas poucas dezenas de indivíduos é assombrosa. (Em um bando de cinquenta indivíduos, há 1.225 relações de um para um, e incontáveis combinações sociais mais complexas.)  Eles provavelmente também tiveram dificuldade para falar pelas costas uns dos outros – uma habilidade muito difamada que, na verdade, é essencial para a cooperação em grande número.

 As novas habilidades linguísticas que os sapiens modernos adquiriram há cerca de 70 milênios permitiram que fofocassem por horas a fio.

 Graças a informações precisas sobre quem era digno de confiança, pequenos grupos puderam se expandir para bandos maiores, e os sapiens puderam desenvolver tipos de cooperação mais sólidos e mais sofisticados.

Ainda hoje, a maior parte da comunicação humana – seja na forma de e-mails, telefonemas ou colunas nos jornais – é fofoca. É tão natural para nós que é como se nossa linguagem tivesse evoluído exatamente com esse propósito. 

A fofoca normalmente gira em torno de comportamentos inadequados. 

 Mas a característica verdadeiramente única da nossa linguagem não é sua capacidade de transmitir informações sobre homens e leões. É a capacidade de transmitir informações sobre coisas que não existem

 A FICÇÃO - HABILIDADE DO HOMO SAPIENS

Até onde sabemos, só os sapiens podem falar sobre tipos e mais tipos de entidades que nunca viram, tocaram ou cheiraram. Lendas, mitos, deuses e religiões apareceram pela primeira vez com a Revolução Cognitiva. 

Antes disso, muitas espécies animais e humanas foram capazes de dizer: “Cuidado! Um leão!”. Graças à Revolução Cognitiva, o Homo sapiens adquiriu a capacidade de dizer: “O leão é o espírito guardião da nossa tribo”. 

Essa capacidade de falar sobre ficções é a característica mais singular da linguagem dos sapiens. A ficção pode ser perigosamente enganosa ou confusa. A ficção nos permitiu não só imaginar coisas como também fazer isso coletivamente. Podemos tecer MITOS PARTILHADOS, tais como a história bíblica da criação, os mitos do Tempo do Sonho dos aborígenes australianos e os mitos nacionalistas dos Estados modernos. 

A LENDA DE PEUGEOT

Nossos primos chimpanzés normalmente vivem em pequenos bandos de várias dezenas de indivíduos. Eles formam fortes laços de amizade, caçam juntos e lutam lado a lado contra babuínos, guepardos e chimpanzés inimigos. Sua estrutura social tende a ser hierárquica. O membro dominante, que quase sempre é um macho, é denominado “macho alfa”. Outros machos e fêmeas demonstram sua submissão ao macho alfa curvando-se diante dele enquanto emitem grunhidos, de modo não muito diferente de súditos humanos se ajoelhando diante de um rei. O macho alfa se esforça para manter a harmonia social em seu bando. Quando dois indivíduos brigam, ele intervém e impede a
violência. Em uma atitude menos benevolente, ele pode monopolizar alimentos particularmente cobiçados e evitar que machos de postos inferiores na hierarquia acasalem com as fêmeas. Quando dois machos estão disputando a posição de alfa, eles normalmente fazem isso formando grandes coalizões de apoiadores, tanto machos quanto fêmeas, dentro do grupo. Os laços entre os membros da coalizão se baseiam em contato íntimo diário – abraçar, tocar, beijar, alisar e fazer favores mútuos. 

Assim como os políticos humanos em campanha eleitoral saem por aí distribuindo apertos de mão e beijando bebês, também os aspirantes à posição superior em um grupo de chimpanzés passam muito tempo abraçando, dando tapinhas nas costas e beijando filhotes. 

O macho alfa normalmente conquista essa posição não porque seja fisicamente mais forte, mas porque lidera uma coalizão grande e estável. Essas coalizões exercem um papel central não só durante as lutas pela posição de alfa como também em quase todas as atividades cotidianas. 

Membros de uma mesma coalizão passam mais tempo juntos, partilham alimentos e ajudam uns aos outros em momentos de dificuldade. Há limites claros ao tamanho dos grupos que podem ser formados e mantidos de tal forma. Para funcionar, todos os membros de um grupo devem conhecer uns aos outros intimamente. Dois chimpanzés que nunca se encontraram, nunca lutaram e nunca se alisaram mutuamente não saberão se podem confiar um no outro, se valerá a pena ajudar um ao outro nem qual deles é superior na hierarquia. Em condições normais, um típico bando de chimpanzés consiste de 20 a 50 indivíduos.

 À medida que o número em um bando de chimpanzés aumenta, a ordem social se desestabiliza, levando enfim à ruptura e à formação de um novo bando por alguns dos animais. Apenas em alguns casos os zoólogos observaram grupos maiores que cem. Grupos separados raramente cooperam e tendem a competir por território e por alimentos. Os pesquisadores documentaram guerras prolongadas entre grupos, e até mesmo um caso de atividade “genocida” em que um bando assassinou sistematicamente a maioria dos membros de um bando vizinho.

 Padrões similares provavelmente dominaram a vida social dos primeiros humanos, incluindo o Homo sapiens arcaico. Os humanos, como os chimpanzés, têm instintos sociais que possibilitaram aos nossos ancestrais construir amizades e hierarquias e caçar ou lutar juntos. No entanto, como os instintos sociais dos chimpanzés, os dos humanos só eram adaptados para pequenos grupos íntimos. Quando o grupo ficava grande demais, sua ordem social se desestabilizava, e o bando se dividia. Mesmo se um vale particularmente fértil pudesse alimentar 500 sapiens arcaicos, não havia jeito de tantos estranhos conseguirem viver juntos. Como poderiam concordar sobre quem deveria ser o líder, quem deveria caçar onde, ou quem deveria acasalar com quem? 

Após a Revolução Cognitiva, a fofoca ajudou o Homo sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas até mesmo a fofoca tem seus limites. Pesquisas sociológicas demonstraram que o tamanho máximo “natural” de um grupo unido por fofoca é de cerca de 150 indivíduos. A maioria das pessoas não consegue nem conhecer intimamente, nem fofocar efetivamente sobre mais de 150 seres humanos.

 Mas, quando o limite de 150 indivíduos é ultrapassado, as coisas já não podem funcionar tão bem. Como o Homo sapiens conseguiu ultrapassar esse limite crítico, fundando cidades com dezenas de milhares de habitantes e impérios que governam centenas de milhões? O segredo foi provavelmente o surgimento da ficção. Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos. Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos partilhados que só existem na imaginação coletiva das pessoas. 

 O Homo sapiens viveu sem propriedades por milênios. Durante a maior parte da história de que se tem registro, a propriedade só poderia pertencer a seres humanos de carne e osso, do tipo que anda sobre duas pernas e tem cérebro grande. Não havia propriedade jurídica.


Os tipos de coisa que as pessoas criam por meio dessa rede de histórias são conhecidos nos meios acadêmicos como “ficções”, “construtos sociais” ou “realidades imaginadas”.

 Uma realidade imaginada não é uma mentira. Eu minto se digo que há um leão perto do rio quando sei perfeitamente que não há leão algum. Não há nada de especial nas mentiras. Macacos-verdes e chimpanzés podem mentir. Já se observou, por exemplo, um macaco-verde gritando “Cuidado! Um leão!” quando não havia leão algum por perto.

 Ao contrário da mentira, uma realidade imaginada é algo em que todo mundo acredita e, enquanto essa crença partilhada persiste, a realidade imaginada exerce influência no mundo. 

Desde a Revolução Cognitiva, os sapiens vivem, portanto, em uma realidade dual. Por um lado, a realidade objetiva dos rios, das árvores e dos leões; por outro, a realidade imaginada de deuses, nações e corporações. Com o passar do tempo, a realidade imaginada se tornou ainda mais poderosa, de modo que hoje a própria sobrevivência de rios, árvores e leões depende da graça de entidades imaginadas, tais como deuses, nações e corporações.

SUPERANDO O GENOMA

A capacidade de criar uma realidade imaginada com palavras possibilitou que um grande número de estranhos coopere de maneira eficaz. Mas também fez algo mais. Uma vez que a cooperação humana em grande escala é baseada em mitos, a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se os mitos – contando-se histórias diferentes.  Nas circunstâncias adequadas, os mitos podem mudar muito depressa

Em consequência, desde a Revolução Cognitiva o Homo sapiens tem sido capaz de revisar seu comportamento rapidamente de acordo com necessidades em constante transformação. Isso
abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética. 

Acelerando por essa via expressa, o Homo sapiens logo ultrapassou todas as outras espécies humanas em sua capacidade de cooperar. Tais mudanças drásticas de comportamento só ocorreriam se algo mudasse no DNA.  Até onde sabemos, as mudanças nos padrões sociais, a invenção de novas tecnologias e a consolidação de novos hábitos decorreram mais de mutações genéticas e pressões ambientais do que de iniciativas culturais. 

Há 2 milhões de anos, mutações genéticas resultaram no surgimento de uma nova espécie humana chamada Homo erectus.  Por sua vez, desde a Revolução Cognitiva, os sapiens têm sido capazes de mudar seu comportamento rapidamente, transmitindo novos comportamentos a gerações futuras sem necessidade de qualquer mudança genética ou ambiental


O que aconteceu na Revolução Cognitiva?
História e biologia

A imensa diversidade de realidades imaginadas que os sapiens inventaram e a diversidade resultante de padrões de comportamento são os principais componentes do que chamamos “culturas”. Desde que apareceram, as culturas nunca cessaram de se transformar e se desenvolver, e essas alterações irrefreáveis são o que denominamos “história”.

 A Revolução Cognitiva é, portanto, o ponto em que a história declarou independência da biologia. Até a Revolução Cognitiva, os feitos de todas as espécies humanas pertenciam ao reino da biologia, ou, se quisermos, da pré-história (eu tendo a evitar o termo “préhistória” pois sugere, erroneamente, que até mesmo antes da Revolução Cognitiva os humanos constituíam uma categoria própria). A partir da Revolução Cognitiva, as narrativas históricas substituem as narrativas biológicas como nosso principal meio de explicar o desenvolvimento do Homo sapiens. 

Para entender a ascensão do cristianismo ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação entre genes, hormônios e organismos. É necessário, também, levar em consideração a interação entre ideias, imagens e fantasias. Isso não significa que o Homo sapiens e a cultura humana tenham se tornado isentos de leis biológicas

Ainda somos animais, e nossas capacidades físicas, emocionais e cognitivas continuam sendo moldadas por nosso DNA

Para resumir as relações entre a biologia e a história após a Revolução Cognitiva: 

a. A biologia estabelece os parâmetros básicos para o comportamento e as capacidades do Homo sapiens. Toda a história acontece dentro dos limites dessa arena biológica.
b. No entanto, essa arena é extraordinariamente grande, possibilitando que os sapiens joguem uma incrível variedade de jogos. Graças à sua habilidade de criar ficções, os sapiens inventam jogos cada vez mais complexos, que cada geração desenvolve e elabora ainda mais. 
c. Em consequência, a fim de entender como os sapiens se comportam, devemos descrever a evolução histórica de suas ações.  

Da descoberta do fogo ao cozimento dos alimentos - Revolução Cognitiva


DESCOBERTA DO FOGO

Há 800 mil anos, algumas espécies humanas faziam uso esporádico do fogo. 

Por volta de 300 mil anos atrás, os Homo erectus, os neandertais e os antepassados do Homo sapiens usavam o fogo diariamente. 

"Os humanos agora tinham uma fonte confiável de luz e de calor e uma arma letal contra os leões à espreita."

 BENEFÍCIOS DO FOGO
  • Queimadas em suas áreas, possibilitando caminhar e coletar animais, nozes e tubérculos carbonizados. 
  • Possibilitou foi o hábito de cozinhar. Alimentos que os humanos não conseguem digerir em sua forma natural – como trigo, arroz e batata – se tornaram itens essenciais da nossa dieta graças ao cozimento. O fogo não só mudava a química dos alimentos; mudava também sua biologia. Cozinhar matava germes e parasitas que infestavam os alimentos. 
  • Também passou a ser muito mais fácil para os humanos mastigar e digerir seus alimentos favoritos, como frutas, nozes, insetos e carniça, se cozidos. 
  • Enquanto os chimpanzés passam cinco horas por dia mastigando alimentos crus, uma hora é suficiente para as pessoas comerem alimentos cozidos.
  • Possibilitou aos humanos comer mais tipos de comida.
  • Dedicar menos tempo à alimentação.
  • Se virar com dentes menores e intestino mais curto. 



Alguns estudiosos acreditam que existe uma relação direta entre o advento do hábito de cozinhar, o encurtamento do trato intestinal e o crescimento do cérebro humano. Considerando que tanto um intestino longo quanto um cérebro grande consomem muita energia, é difícil ter os dois ao mesmo tempo. Ao encurtar o intestino e reduzir seu consumo de energia, o hábito de cozinhar inadvertidamente abriu caminho para o cérebro enorme dos neandertais e dos sapiens.

 Ao domesticar o fogo, os humanos ganharam controle de uma força obediente e potencialmente ilimitada. Podiam escolher onde e quando acender uma chama, e foram capazes de explorar o fogo para inúmeras tarefas. 

O que é mais importante, o poder do fogo não era limitado pela forma, estrutura ou força do corpo humano. Uma única mulher com uma pedra ou vareta podia produzir fogo para queimar uma floresta inteira em uma questão de horas. A domesticação do fogo foi um sinal do que estava por vir.


 O Homo sapiens conquista o globo.
Os cuidadores de nossos irmãos

Homo sapiens evoluíram pela primeira vez a partir algum tipo anterior de humano, mas a maioria dos cientistas concorda que há 150 mil anos a África Oriental estava povoada por sapiens que se pareciam exatamente como nós. Se um deles aparecesse em um necrotério moderno, o patologista local não notaria nada peculiar. Graças às bênçãos do fogo, eles tinham mandíbulas e dentes menores que seus ancestrais, ao passo que tinham cérebros enormes, iguais aos nossos em tamanho. 

Os cientistas também concordam que há cerca de 70 mil anos, sapiens da África Oriental se espalharam na península Arábica e de lá rapidamente tomaram o território da Eurásia. Quando o Homo sapiens chegou à Arábia, a maior parte da Eurásia já era ocupada por outros humanos. O que aconteceu com eles? Há duas teorias conflitantes.


TEORIA DA MISCIGENAÇÃO



 A “teoria da miscigenação” conta uma história de atração, sexo e miscigenação. À medida que os imigrantes africanos se espalharam pelo mundo, eles procriaram com outras populações humanas, e as pessoas, hoje, são resultado dessa miscigenação. 

Por exemplo, quando os sapiens chegaram ao Oriente Médio e à Europa, encontraram os neandertais. Esses humanos eram mais musculosos que os sapiens, tinham cérebro maior e eram mais bem adaptados a climas frios. Usavam ferramentas e fogo, eram caçadores exímios e, ao que parece, cuidavam dos doentes e debilitados (arqueólogos encontraram ossos de neandertais que viveram por muitos anos com várias deficiências físicas, indícios de que eram cuidados por seus parentes). 

Os neandertais muitas vezes são retratados em caricaturas como o arquetípico “homem das cavernas” bruto e estúpido, mas indícios recentes mudaram essa imagem. 

Reconstrução especulativa de uma criança neandertal. 

As evidências genéticas indicam que pelo menos alguns neandertais podem ter tido pele e cabelo claros. De acordo com a teoria da miscigenação, quando o Homo sapiens se espalhou por terras neandertais, os sapiens procriaram com neandertais até que as duas populações se fundiram. Se isso for verdade, então os eurasianos de hoje não são sapiens puros. São uma mistura de sapiens e neandertais. 

De forma semelhante, quando chegaram à Ásia Oriental, os sapiens se misturaram com os locais Homo erectus, de forma que os chineses e coreanos são uma mistura de sapiens e Homo erectus


TEORIA DA SIBSTITUIÇÃO

A visão oposta, chamada de “teoria da substituição”, conta uma história muito diferente – uma história de incompatibilidade, repulsa e, talvez, até mesmo genocídio. Sapiens e neandertais tinham anatomias diferentes, e muito provavelmente hábitos de acasalamento e até mesmo odor corporal diferentes. Provavelmente tinham pouco interesse sexual uns pelos outros. Mesmo que um Romeu neandertal e uma Julieta sapiens se apaixonassem, não poderiam produzir descendentes férteis porque o abismo genético separando as duas populações já era intransponível.

As duas populações teriam permanecido distintas, e quando os neandertais morreram, ou foram mortos, seus genes teriam morrido com eles. De acordo com essa teoria, sapiens substituíram todas as populações humanas anteriores sem se misturar com nenhuma delas. Nesse caso, a origem de todas as linhagens humanas existentes pode ser atribuída exclusivamente à África Oriental de 70 mil anos atrás. 

PESQUISAS CIENTÍFICAS ATUAIS

Em 2010, quando foram publicados os resultados de um esforço de quatro anos para mapear o genoma dos neandertais. 

Geneticistas conseguiram coletar DNA intacto de fósseis de neandertais em quantidade suficiente para fazer uma comparação detalhada com o DNA de humanos contemporâneos 

Os resultados desconcertaram a comunidade científica. Revelou-se que de 1% a 4% do DNA das populações modernas no Oriente Médio e na Europa são DNA de neandertal. Não é uma grande quantidade, mas é significante. 

Um segundo choque veio meses depois, quando foi mapeado o DNA extraído do dedo fossilizado de Denisova. Os resultados comprovaram que até 6% do DNA humano dos melanésios e dos aborígenes australianos modernos são DNA denisovano! Se esses resultados forem válidos – e é importante ter em mente que estão sendo realizadas mais pesquisas que podem tanto corroborar quanto modificar essas conclusões –, os defensores da teoria da miscigenação acertaram em pelo menos alguns aspectos. Mas isso não significa que a teoria da substituição esteja completamente errada. Uma vez que os neandertais e os denisovanos contribuíram apenas com uma pequena proporção de DNA para nosso genoma atual, é impossível falar de uma “fusão” entre os sapiens e outras espécies humanas. 

Embora as diferenças entre elas não fossem grandes o suficiente para evitar completamente a geração de descendentes férteis, eram suficientes para fazer que tais contatos fossem muito raros. 

Deve ter havido um ponto em que as duas populações já eram bem diferentes uma da outra, mas ainda capazes, em raras ocasiões, de ter relações sexuais e gerar descendentes férteis. Então houve MUTAÇÃO em mais um ou dois genes, e esse último fio que as conectava se perdeu para sempre.

Ao que parece, há cerca de 50 mil anos, sapiens, neandertais e denisovanos se encontravam nesse limite. Eram espécies quase separadas, mas não totalmente. Como veremos no próximo capítulo, os sapiens já eram bem diferentes dos neandertais e dos denisovanos não só em seu código genético e em seus traços físicos, como também sua capacidade cognitiva e habilidades sociais

 A TOLERÂNCIA não é uma marca registrada dos sapiens. Nos tempos modernos, uma pequena diferença em cor de pele, dialeto ou religião tem sido suficiente para levar um grupo de sapiens a tentar exterminar outro grupo. Os sapiens antigos teriam sido mais tolerantes para com uma espécie humana totalmente diferente? É bem possível que, quando os sapiens encontraram os neandertais, o resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica na história. 

Nos últimos 10 mil anos, o Homo sapiens esteve tão acostumado a ser a única espécie humana que é difícil para nós concebermos qualquer outra possibilidade. A ausência de irmãos ou irmãs torna fácil imaginar que somos o epítome da criação e que um cisma nos separa do resto do reino animal. 

Se a culpa é dos sapiens ou não, o fato é que, tão logo eles chegavam a um novo local, a população nativa era extinta. Os últimos remanescentes do Homo soloensis datam de cerca de 50 mil anos atrás. O Homo denisova desapareceu logo depois. Os neandertais sumiram há cerca de 30 mil anos. Os últimos humanos diminutos desapareceram da ilha de Flores há aproximadamente 12 mil anos. 

Deixaram para trás alguns ossos, ferramentas de pedra, uns poucos genes em nosso DNA e uma porção de perguntas sem resposta. Também deixaram a nós, Homo sapiens, a última espécie humana.

O  Homo sapiens conquistou o mundo, acima de tudo, graças à sua linguagem única.