quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Do Artigo: O Ciclo de contato e a busca da Awareness na Psicoterapia de orientação gestáltica

  •  pretende compreender a importância da awareness e o ciclo de contato na psicoterapia de orientação gestáltica.
  • apresenta a abordagem como meio de revelação durante o processo, através do envolvimento criativo, contribuindo para o desenvolvimento de mais awareness.
  • relevância do fechamento de uma gestalten.
  •  visa identificar como a psicoterapia, pode contribuir para o desenvolvimento da paciente, com base na teoria de awareness e do ciclo de contato da Gestalt-terapia (GT)
  • parte do estudo de caso de bipolaridade na clínica.

Pinto (2015, p. 19) aponta que:

  • [...] em um processo psicoterapêutico a compreensão diagnóstica não pode ser apenas um diagnóstico do cliente: ela precisa envolver a situação terapêutica e a situação de vida do cliente como um todo, além, é claro, das disposições do terapeuta para aquele trabalho clínico. 
  • A compreensão diagnóstica em Gestalt-terapia ainda deve levar em conta tanto os aspectos intrapsíquicos quando os relacionais, embora de ênfase maior aos aspectos referentes a intersubjetividade.

  • O processo terapêutico na perspectiva da Gestalt-terapia
    • De acordo com Perls (1988) a palavra Gestalt é de origem alemã e não possui tradução equivalente. Conceituada como um modo particular de organização entre as partes individuais que se compõem.
    • Influências intelectuais de Frederick S. Perls no desenvolvimento da GT:
      • a psicanálise,
      • a psicologia da Gestalt, 
      • o existencialismo
      • e a fenomenologia,
      • incorporando também ideias de Jacob Levi Moreno, como a importância da definição de papéis.
    • Perls e a Gestalt se importam com o “como”, ou seja, os processos vivenciados e o sentido que eles têm para a pessoa. O indivíduo é entendido na sua interação e relação com o meio (ANDRADE, 2007).
      Alvim (2014) aponta que...
      •  para a GT, awareness tem um sentido próprio que é o saber da experiência, considerando o movimento entre contato, organismo e meio, onde o indivíduo percebe o sentido e significado de si e do mundo.
      • O organismo tende a buscar um equilíbrio. Quando não há o equilíbrio gera-se uma neurose.
      • A conscientização só pode acontecer no aqui-agora e quando se mexe em uma parte deve-se ter consciência de que o todo será alterado.
      • A formação espontânea de Gestalten é por nós compreendida como configuração de sentido que emana da interação entre o organismo e o ambiente;
      • Concebemos a awareness como o fluxo da experiência aqui- agora que, a partir do sentir e do excitamento presentes no campo, orientando a formação de Gestalten.
      • Ao ouvir um indivíduo em psicoterapia, o psicoterapeuta deve abdicar de suas crenças, apenas acompanhar a fala do paciente, deixando que a experiência do outro se revele como fenômeno
      Na Gestalt-Terapia...
      • contato é o entregar-se ao encontro, um encontro pleno, tendo como sinônimo o cuidado (Ribeiro, 2007)
      •  Para a GT o contato está ligado às relações do indivíduo consigo mesmo e com o meio. (Ribeiro,2007)
      • A forma de contato revela o grau de individuação, maturidade e auto entrega. (Ribeiro,2007)
      • Ao ouvir um indivíduo em psicoterapia, o psicoterapeuta deve abdicar de suas crenças, apenas acompanhar a fala do paciente, deixando que a experiência do outro se revele como fenômeno (Alvim, 2014)
      • o processo de psicoterapia visa o envolvimento criativo e na medida em que avança, flui mais confortavelmente. Zinker (2007)
      • é essencial aprender a lidar de forma criativa com os sentimentos conflitantes, em vez de lutar contra seus próprios sentimentos ou polarizar o comportamento.
      • Crescimento e desenvolvimento implicam trocas entre o indivíduo e seu meio, surgindo por meio dessas trocas a possibilidade de entrar em contato com o novo e com o diferente. A essas trocas damos o nome de contato. (Salomão, Frazão, Fukumitsu, 2014)
      • é de suma importância que ocorra o desbloqueio da awareness e da energia. Na GT a passagem ao ato é realizada através da experiência controlada, no consultório, um ambiente seguro onde o paciente pode experienciar a energia com a qual entrou em contato. Então o paciente pode passar a experimentar em seu cotidiano fazendo com que se prolongue a manifestação física concreta, contribuindo para a mudança.(Zinker, 2007)
      • o experimento em psicoterapia é um convite ao paciente para reconstruir algo. ( Rodrigues, 2009)
      •  a GT visa restaurar a fluidez do processo de desenvolvimento da figura e do fundo através da análise das estruturas internas que o paciente apresenta diante da experiência (D’Acri, Lima e Orgler (2007)
      • tem como objetivo principal desfazer as interrupções no ciclo de awareness-excitação-contato de acordo com a personalidade apresentada pelo paciente durante o processo, podendo relacionar psicopatologias descritas pela nomenclatura psiquiátrica. Zinker (2007)
      • Ginger e Ginger (1995) afirmam que as subdivisões do ciclo de contato-retração não são tão relevantes para a prática clínica. Identificar e localizar a fase do ciclo onde acontece a interrupção ou qualquer perturbação é o principal interesse. A pessoa não consegue agir com base em seus impulsos. Indivíduo tem o desejo de se movimentar, mas não tem energia para agir. (Zinker, 2007) 
      • O limite no qual o indivíduo e o meio se tocam é denominado pela Gestalt-terapia de fronteira de contato. Só quando o indivíduo alcança a sua fronteira de contato e experiencia ao mesmo tempo está ligado ao meio e estar separado dele – estando aberto ao novo, exposto a coisas ameaçadoras – ocorrem contato e possibilidade de modificação. É nos limites, nos pontos de contato, que a awareness se dá e determina os limites do campo pessoal (PINTO, 2015, p. 50). 
      • “A terapia é um processo de mudança da awareness e do comportamento. O sine qua non do processo criativo é a mudança: a conversão de uma forma em outra” (ZINKER, 2007, p. 17). 
      Na Neurose...
      • o organismo e o meio estão doentes. O meio tem a mesma dinâmica do organismo, buscando responder às necessidades predominantes em primeiro lugar. (Perls, 1988)
      •  o indivíduo neurótico não tem condições de perceber suas necessidades e tão pouco de supri-las
      • A neurose, pelo contrário, seria uma perda da função “ego” ou da função “personalidade”: a escolha da atitude adequada é difícil ou desadaptada  (GINGER E GINGER, 1995).
      O Ciclo de Contato
      • O ciclo é uma expressão do que fizemos ao afirmar que a pessoa humana é, essencialmente, um ser de relação. (RIBEIRO, 2006 p. 89).
      •  Quando afirmamos que o universo procede em ciclos, também estamos dizendo que as pessoas repetem o mesmo movimento em escala micro, pois ciclo significa que o presente é o repasse do passado transformado e a projeção do futuro por meio das estruturas já presentes nele.  (Padrões de repetição)  (RIBEIRO, 2006 p. 89).
      • Essa circularidade nos torna essencialmente seres de relação em permanente mudança, ou seja, seres à busca de si mesmos. Isso é contato (RIBEIRO, 2006 p. 89).
      • [...] as funções de contato são fundamentais à medida que se transformam em suporte e facilitam o processo de contato. O contrário também acontece, isto é, as funções de contato funcionam como resistência se bloqueiam o contato desejado ou impedem a satisfação das necessidades.  (D’ACRI, 2014, p. 43).
      • Para Ribeiro (2007), em psicoterapia o ciclo de contato funciona como um paradigma, um modelo que permite ler o indivíduo, além de permitir o encontro e se deparar com novas possibilidades.
      • D’Acri, Lima e Orgler (2007) afirmam que contato é um processo profundo que transforma, muda e cura, é um dar-se conta de si, através do cognitivo, emocional, motor, o contínuo expressado através do corpo.
      • Para Ribeiro (2007, p. 59), “O ciclo é o espaço vital total de uma pessoa, de um grupo, de um lugar, de uma empresa. Ele revela as mil possibilidades dentro das quais a realidade, a pessoa ou a coisa se expressam”.
      Zinker (2007) expõe o ciclo de consciência-excitação-contato que é representado por sete fases, sendo elas:
      1.  sensação, 
      2. consciência, 
      3. mobilização de energia, 
      4. excitação, 
      5. ação, 
      6. contato 
      7. retraimento.
      Ribeiro (2006) apresenta o ciclo de contato da saúde com nove fases:
      1. a fluidez, 
      2. a sensação, 
      3. a consciência, 
      4. a mobilização, 
      5. a ação, 
      6. a interação, 
      7. o contato final, 
      8. a satisfação 
      9. a retirada. 
       O autor ainda apresenta os bloqueios que correspondem a cada mecanismo de saúde sendo eles:
      1. a fixação, 
      2. dessensibilização, 
      3. introjeção, 
      4. projeção, 
      5. deflexão, 
      6. retroflexão, 
      7. egotismo 
      8.  confluência.
      Referências:
      FRONZA, Juliana Lomba MALLMANN, Loivo José (Orientador). O CICLO DE CONTATO E A BUSCA DA AWARENESS NA PSICOTERAPIA DE ORIENTAÇÃO GESTÁLTICA

      Do Artigo: O contato na situação contemporânea: um olhar da clínica da Gestalt-terapia

      • parte de queixas dos clientes atendidos na clínica.
      • busca compreender ...
        • a existência o mundo contemporâneo. 
        • como é vivenciado o contato com o outro na atualidade.
      • Revisa bibliografia a respeito do que a GT fala das relações e do homem.
      • Percepção de que os sofrimentos apontam para uma dificuldade de estabelecer diálogo, intimidade e entrega.
      A Gestalt-terapia...

    • considera que o homem e todo organismo vivo está interligado com o resto do mundo;
    • só faz sentido falar do homem que vive em determinado meio que faz parte de sua existência e forma com ele uma totalidade.
    • tem foco nas relações organismo-ambiente, que o sujeito mantém consigo, com o outro e o meio em que vive.
    • se debruça no estudo do contato em si, ou seja, na forma como o indivíduo se relaciona consigo, com o outro e o meio, da fronteira que interconecta eu-mundo e eu-outro.
    • Considera o Self contato.
    • Self é definido como sistema de contatos em que o eu se desloca do interior do psiquismo  para o campo, como processo que se desenrola no tempo, espontaneamente, expressivamente e de forma criadora, segundo Alvim (2012).
    • A Fronteira de contato marca uma delimitação temporal - indica o momento  em que nos deparamos com uma novidade que nos causa estranhamento e nos faz partir em busca de um sentido para este encontro.
    • Esse novo encontro com a novidade gera uma certa tensão por esse encontro, logo, falar da experiência é falar de contato.
    • Ajustamento criativo é processo de encontro e assimilação de uma diferença, que implica se arriscar diante do novo e do desconhecido, ou seja, a forma como o cliente se autorregula diante da novidade. O ajustamento criativo implica em uma ação espontânea no campo, podendo ser ativo (quando se quer realizar algo) ou passivo ( quando se espera que lhe façam algo) segundo Perls, Hefferline &Goodman (1651/11997)
    • As autoras...
      • sugerem que  a possibilidade do contato pleno, da entrega, da abertura, da awareness se encontram em falência na contemporaneidade.
      • que a GT pode auxiliar o sujeito a olhar de forma mais crítica para os fenômenos trazidos à clínica pelos clientes.
      • pretendem compreender os valores da sociedade atual a partir de dilemas levados por esses clientes.
      • reafirma posição dialética fundada no diálogo e na relação, observando o ser integralmente.

      1. A experiência do contato: do eu-outro, para o nós.

      - É como se eu fosse vermelho e ele amarelo, eu só queria que de vez em quando virássemos laranja e depois voltássemos a ser vermelho e amarelo e assim por diante. (Stela)
      • Observa-se o desejo de fazer contato na relação com o outro, e seu sofrimento por não conseguir.
      • traz sentimento de solidão e frustração.
      2. O processo de contato e suas interrupções
      • Na Gestalt-Terapia existem muitas formas de se olhar para o contato e suas interrupções.
      • A GT propõe 4 etapas para abordar o contato e a forma como ele acontece no tempo:
        • pré-contato
        • contato
        • contato final
        • pós-contato
      • As maiores demandas na clínica apontam para a dificuldade na experiência da alteridade (relação do que é o outro) e do diálogo.
      • Substituir o desconhecido e o diferente pelo conhecido em uma tentativa de evitar fazer contato com alfo que o ameaça acaba se tornando uma neurose.
      • A forma como se interrompe a dinâmica de contato fala da singularidade daquela pessoa e mostra o momento em que se bloqueia o fluxo da experiência, onde a dificuldade parece estar mais presente.
      • Destaca-se na clínica, como interrupções no momento do contato e do contato final a retroflexão, proflexão e egotismo.
      2.1. Contato

      • Na etapa do contato a energia mobilizada já está comprometida, isto quer dizer que:
        •  já houve a eleição de uma figura
        •  o organismo já teve uma sensação
        • se conscientizou de sua necessidade
        • se mobilizou e agiu em direção a uma possível satisfação.
      • O momento é...
        • o da agressão, 
        • de lidar com a diferença e com o outro, 
        • envolve conflito,
        •  destruição e assimilação do novo, dessa figura escolhida para a satisfação de uma necessidade.
      • O self...
        • frente ao conflito procura assimilar e se perceber no processo, bem como, estar mais aware de si.
        • quando a figura esta definida e a energia comprometida, o organismo se encontra na iminência da interação de si.
      • Bloqueando essa etapa de contato...
        • a energia que estava sendo direcionada retorna para si - retroflexão
        • ou a energia é direcionada para o outro, de forma enviesada, ocorrendo a proflexão.
        • Retroflexão e Proflexão...
          •  falam da impossibilidade da pessoa expressar suas necessidade para o outro de forma direta,
          •  impede o agir espontâneo frente ao outro, de encontrar e trocar com este diretamente, com confiança e coragem de assumir o risco que isso inclui.
          • evita-se aí o conflito direto
          • as formas disponíveis para tentar alguma satisfação nesses casos são:
            • ou satisfazer a si mesmo 
            • ou uma tentativa de eliciar no outro uma resposta mais ou menos esperada.
        • na Retroflexão...
            • isolamento é marcado por uma autossuficiência, um fazer você mesmo, enrijecendo a fronteira de contato e cindindo-se do ambiente, do outro; 
            • aqui há uma desistência do outro ou se entende que precisar dele é uma fraqueza, fazendo consigo mesmo aquilo que se precisa.
          • na Proflexão
            • no isolamento há uma espécie de “cegueira” e o outro passa a ser como uma tela de projeção, fantasiado, um espectro enevoado no qual se vê apenas uma idealidade.
            • proflexão, toma-se o outro como objeto, de modo a satisfazer a sua necessidade.
          • em ambos os casos
            • utiliza-se de manipulação, de comportamentos evocativos e indiretos, redobrando seus esforços quando encontra alguma resistência.
            • suas relações se mantêm empobrecidas, sem a sensação de estar satisfeito.
        2. Contato final
        • é o ápice do processo do contato, porém, não chega a ser o seu final em si, já que este acontece no pós-contato, momento da assimilação e do crescimento. 
        • Trata-se, então, do momento da união, do encontro eu-figura em si. 
        • Segundo Clarkson (1989) esse é o momento do engajamento total, cheio e vibrante com a figura da ação escolhida.
        • o self está absorvido de maneira imediata e plena na figura que descobriu-e-inventou; no momento não há praticamente nenhum fundo.
        • A figura incorpora todo o interesse do self, e o self não é nada mais do que seu interesse presente, de modo que o self é a figura (Perls, Hefferline & Goodman, 1951/1997, p. 221).
        • O sentimento de ego ativo da etapa anterior do conflito e agressão abranda-se ou desaparece.
        • Dizer que o fundo está vazio é falar em ato de entrega total com a figura escolhida, com atenção plena. 
          • No caso Stela esse é o momento em que ego e self se fundem formando uma só cor. 
          • Momento derradeiro para  se experienciar tanto o outro quanto a si mesmo, onde está presente a qualidade da totalidade campo-organismo-ambiente.
          • envolve renúncia de si, de entrega, onde o self se sente mais vivo:
        • Egotismo 
          •  impossibilidade de viver esse ato de entrega, em que figura e fundo se fundem em um só, de forma plena.
          • Segundo Perls, Hefferline & Goodman (1951/1997) consiste numa dificuldade em renunciar ao controle e à vigilância, numa ansiedade frente à indiferenciação, numa preocupação última com nossas próprias fronteiras, consigo ao invés de com aquilo que é contatado.
          • Há uma dificuldade em “relaxar o controle, soltar-se, ter a audácia de terminar a ação empreendida, abrir as fronteiras ao encontro” (Robine, 2006 p. 131).
          • O self, ao se enrijecer e evitando se entregar...
            •  não consegue agir em sua dimensão de espontaneidade e criatividade.
            • se vê em uma situação de emergência em cada possibilidade de interação e por isso mesmo precisa se proteger.
            • não permite vivenciar plenamente o encontro, ficando o contato esquecido enquanto possibilidade.
        3. A experiência na contemporaneidade...
        • Pode-se pensar em duas formas de existir no tempo presente:
          •  uma alienada, acrítica, apartada de uma reflexão sobre o mundo atual, 
          • e outra, a qual Agamben chama de contemporânea, que é a vivência daquele que “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (2009, p. 62)
          •  isso não significa de modo algum uma inércia, mas sim, como acrescenta ele, “uma habilidade particular, que nesse caso, equivalem a neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir as suas trevas, o seu escuro especial, que não é, no entanto, separável daquelas luzes” (2009, p. 63).
        3.1. Marcas da contemporaneidade
        • há um “mal-estar” na contemporaneidade (Freud)
          • perda das referências
          • referências,
          • o racionalismo 
          • o cientificismo, 
          • o incremento do individualismo, 
          • a aceleração do tempo.
        • Com a fenomenologia...
          • Começa-se a pensar que consciência e mundo não são separados, mas aspectos de uma mesma realidade, na qual corpo e mente estão associados numa experiência intencional.
          • Franklin Leopoldo e Silva (2012) nos lembra de uma célebre frase de Jean Paul Sartre, em que este afirma que o inferno são os outros. Segundo o autor viver junto implica numa partilha de valores sobre a vida aspirações comuns, ou seja, um movimento em direção a uma vida comum, uma convivência.
          • A solidão numa sociedade massificada encoraja o indivíduo a buscar alívio e abrigo em grupos sectários, nos quais a homogeneidade representa a segurança que não está presente na experiência autêntica da diversidade.
          • Santos (2009, p. 18) afirma: “Temos direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”.
        4. Entrecruzamentos...
        • como dizia Merleau-Ponty (1964/2000), a carne do mundo, se comungamos de um fundo comum, de uma generalidade, de uma cultura que nos atravessa a todos, podemos inferir que nãoé à toa que muitos estamos adoecidos.
        •  Compartilhamos de uma teia também adoecida, de um fundo que não é favorável à experiência de alteridade, ao encontro, à intimidade, à singularidade, à criação de novos possíveis.
        Segundo as autoras...
        • Vimos, em nossa clínica, que as pessoas têm tido cada vez mais dificuldade em lidar com o momento do conflito e da entrega. 
        • A dificuldade do conflito é uma dificuldade do embate, da
        • agressão; 
        • A da entrega diz respeito a abrir mão de uma atividade, de se lançar na experiência de união e dissolução das fronteiras.
        • Podemos estar em uma atividade mecânica, guiada pela pressa, que reflete uma lógica de produtividade e um medo de parar e encarar a ansiedade da incerteza frente ao desconhecido 
        • Ou podemos estar também num modo de ser passivo, engolindo pronto aquilo que vem de fora. 
        • Em ambos os casos alienados e acríticos, o que permeia esses dois modos de estar no mundo é uma alienação tanto pela atividade quanto pela passividade.
        • Os sujeitos em sua passividade introjetam esses valores como normas naturalizadas e não se questionam sobre eles, apenas os reproduzem.
        • A sociedade atual estipula normas gerais que indicam o que é certo/normal e o que está fora dessa margem, o errado/ anormal. Segue-se padrões sem questionamentos.
        • É preciso um gesto de interrupção para se perceber:
          • requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.
          • É justamente por estarmos apressados que nos distanciamos do que é da ordem da experiência, isolados uns dos outros, individualizados e numa constante competição nos afastamos da possibilidade de nos encontrarmos com o outro, de “estar com”.
        • "na rearticulação dos coletivos pela adoção de uma postura de diálogo e afirmação da alteridade, uma proposta de estabelecermos um espaço possível de esperança, em que sejam construídas relações onde haja espaço para o encontro, para a experiência de olhar e ser olhado, do reconhecimento, da empatia, do estar com, do reestabelecimento do vínculo. Com isso, vemos uma possibilidade de uma rearticulação entre as partes e o todo."
        • a clínica que se propõe e se estabelece dentro dessa lógica da alteridade restabelecida e forma dialética pode se configurar também enquanto um lugar que atua em prol da reversibilidade do quadro em que nos encontramos.
        • Criamos através da relação terapêutica, a possibilidade da pessoa resgatar a conexão primordial, religando-a a si mesma e aos demais, constituindo ou restaurando a sua própria humanidade”
        A Gestalt-terapia... 
        • busca recuperar o sentido da experiência concreta, do vivido e, para além disso, busca ampliar a awareness, ou seja, através da presentificação, restaurar nos sujeitos a dimensão do sensível e sua possibilidade criativa, de agressão.
        • traz uma proposta de saúde baseada na espontaneidade e na possibilidade de sermos no mundo de forma mais crítica, menos alienada.
        • sua terapia torna-se essa possibilidade de reconexão, que também encontramos na experiência do coletivo.
        • torna-se necessário que nos arrisquemos  diante do novo, pois a experiência, como já dissemos, comporta uma dimensão de risco e de travessia, de coragem para enfrentar a dimensão do perigo, que abarca tanto o júbilo como o sofrimento em meio a uma sociedade que se é proibido sofrer.
        • Direcionados sempre para o fim, perdemos o meio, e com isso o espaço da experiência, do acontecimento e da transformação, lugares do qual se ocupa a GT.
        Referências:
        Pepsico. SILVA, Thatuana Caputo Domingues; BAPTISTA, Camilia Santos; ALVIM, Mônica Botelho. O contato na situação contemporânea: um olhar da clínica da Gesatlt-terapia.

        quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

        Do Artigo: Contato, Virtualidade e Ciberespaço: Uma reflexão à luz da Gestalt-terapia

         

        • discute o fenômeno da virtualidade no contexto do ciberespaço e o entendimento da Gestalt-terapia.
        • Teoria do Self traz noção de contato para ressaltar o caráter virtual da experiência.
        • Adentra no campo das relações interpessoais.
        "Constatou-se o ciberespaço enquanto um campo onde coabitam implicações materiais e virtuais que fomentam uma nova configuração para experiência e consequentemente um campo de ajustamento criativo."

        século XXI - permite se relacionar através de uma rede de comunicação simultânea e global, o que nos permite interação sem a necessidade de dividirmos o mesmo espaço-tempo.

        O ciberespaço...
        • as estas transformações se estendem na formação de uma cultura própria da contemporaneidade
        • ocorre a interação humana via mídias digitais
        • ressalta uma nova interface para experiência humana, onde a crescente circulação desenfreada de informações infere um campo novo, desconhecido e exacerbado em possibilidades.
        • Segundo Lévy (1999) o ciberespaço pode ser entendido enquanto um espaço não físico pelo qual as informações circulam por meio de um conjunto deredes de computadores.
        • Lima (2009) traz que “o ciberespaço não é uma realidade a parte, ou um não-lugar desconectado da realidade, mas uma expansão e um complexificador do real” (p.5), ou seja, para além da noção espacial/material o ciberespaço se refere a um ambiente simulado onde é possível interagir transmitindo informações e conteúdos simbólicos, proporcionando uma experiência conjunta de interação, mesmo deslocada em um tempo-espaço diferente ( CAPANEMA e AVANZA, 2013).

        A Cibercultura...
        • por Lévi (1999) como sendo “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (p.16).
        • Santaella (2003) traz que o advento da cibercultura não tem mudado apenas a maneira como nos comunicamos, mas também a forma como produzimos, criamos, distribuímos e compartilhamos.

        Bases teóricas para se pensar o contato neste novo campo virtualizado da experiência....
        • Obra Gestalt-terapia de Perls, Hefferline e Goodman (1997) e nos estudos de seus desdobramentos feitos por Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2004, 2007, 2012).
        O que significa Gestalt...

        Segundo Engelmann (2002): “O substantivo alemão ‘Gestalt’, desde a época de Goethe, apresenta dois significados diferentes:

        (1) a forma; 
        (2) uma entidade concreta que possui entre seus vários atributos a forma” (p.2). 

        A opção majoritária de manter o termo original por parte dos
        gestaltistas ressalta a importância estética que o mesmo tem para a teoria, utilizado pelo próprio Goethe para descrever a “[...] auto-organização, do sentido e a expressividade presentes nos fenômenos da natureza” (CHOLFE, 2009, p.30).

        A Gestalt-terapia...
        • se estabelece como uma abordagem que possibilita uma análise holística do ser humano através de uma forte base epistemológica, que parte da relação entre organismo e o meio.
        • o homem passa a ser visto como parte atuante em um todo maior.
        • Um constante campo interacional entre o organismo e o ambiente, no qual a manifestação das experiências vividas no passado e as expectativas geradas frente às possibilidades de futuro se fazem presentes transientemente no aqui-e-agora (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2004).
        Influências da Gestalt-terapia...
        • marca o abandono do método introspeccionista e dos conceitos clássicos de atenção, sensação e associação em valor do método fenomenológico, o que permitiu que Wertheimer e Köhler propusessem uma aproximação do pensamento em relação a uma experiência concreta (CHOLFE, 2009).
        • transcende o formato mentalista, até então predominante, de se fazer Psicologia.
        • Perls levantou duras críticas a este método, uma vez que se pautava na busca por leis estruturais universais.
        • Perls vai beber da teoria de Kurt Goldstein, trocando o dualismo entre mente e corpo (fenômenos psicológicos versus fenômenos físicos) pela compreensão descritiva de um processo de funcionamento organísmico (BELMINO, 2014).
        • "nenhum organismo é autossuficiente Requer o mundo para a satisfação de suas necessidades"
        • quebra de um pensamento dicotômico que separava o homem e a natureza em estâncias isoladas e o início de uma linguagem integradora pautada na compreensão de uma unidade do organismo e sua integração com o campo (unidade organismo/ambiente) (BELMINO, 2014).
        • Para Perls, Hefferline e Goodman (1997) o pensamento dicotômico proposto pelas teorias antropológicas anteriores na verdade são fragmentações da experiência, uma vez que não abarcam o “todo”, apesar de serem estruturas unificadas e definidas.
        • propõe a observação da experiência em si mesma, formulando assim uma noção de campo construído através de polaridades que nascem de noções contrárias (BELMINO, 2014).
        • segundo Perls (2002) ocorre uma diferenciação em opostos: "somos indiferentes a tudo que é ‘não diferenciado’ a partir de nosso ponto e vista subjetivo” (p.46).
        O Ego...
        • passa a ser entendido como uma função seletiva do organismo no campo, pela qual ele identifica-se e aliena-se em sua interface com o ambiente (PERLS, 2002).
        • o ego enquanto função da experiência é ativado a partir do encontro com o “estranho”, exercendo a função de determinar os limites ou fronteiras entre o pessoal e o impessoal.
        • Assim como a respiração é uma função do pulmão o ego é a função seletiva do organismo, fundamental para compreender suas próprias fronteiras (PERLS, 2002). 
        • A fluidez deste processo de diferenciação se dá por meio da dinâmica do contato/fuga, na qual o contato é o ato de identificação e alienação com o meio e a fuga o processo de retrair-se para que uma nova experiência possa emergir (BELMINO, 2014).
        Ajustamento criativo ...

        “o processo de contatar no campo organismo/ambiente [...]” (p.100), ou seja “[...] o processo de assimilação da novidade e a rejeição do inassimilável” (BELMINO, 2014, p. 99).

        Teoria do Self...
        • discutida/lida através de “[...] três principais sistemas parciais –ego, id e personalidade -, que em circunstâncias específicas parecem ser o self”.
        • Através desses três sistemas é possível ler a experiência de um campo.
        • as funções id, ego e personalidade são entendidos enquanto ferramentas descritivas do processo temporal que é o “self” (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2004).
          • Id - surge como sendo passivo, disperso e irracional” (PERLS,HEFFERLINE E GOODMAN, 1997, p. 186), Ou seja, refere-se ao corpo ainda não representado frente a experiência, os tecidos e músculos que de tão integrados ao meio são indiferenciáveis, sendo “[...]vivido como volume, espessura, trânsito entre eu e o mundo” (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2004, p.3).
          • Ego - A função de ego, por sua vez remete a deliberação, decisão, ação. É a função pela qual o “self” polariza as trocas energéticas em uma extremidade da relação (MÜLLER-GRANZOTTO E MÜLLER-GRANZOTTO, 2004). Nesse momento “[...] um interesse assume a dominância e as forças se mobilizam de modo espontâneo, determinadas imagens se avivam e as respostas motoras são iniciadas” (PERLS, HEFFERLINE &GOODMAN, 1997, p.184).
          • Função Personalidade - é descrita por Perls, Hefferline e Goodman (1997) como sendo: [...]o sistema de atitudes adotadas nas relações interpessoais; é a admissão do que somos, que serve de fundamento pelo qual poderíamos explicar nosso comportamento, se nos pedissem uma explicação (p.187).
          • Self - “self” pode ser entendido enquanto “o sistema de contato no momento presente” (PERLS, GOODMAN, HEFFERLINE, 1997, p.10), e não meramente enquanto organismo em interação com ambiente como ocorreu em Perls (2002) e na teoria de Goldstein (BELMINO, 2017).
          O Self enquanto rede temporal..
          • a fronteira de contato se evidencia como presente transiente, ou seja, se efetiva enquanto um campo de presença no qual coabitam nossas vivências passadas e expectativas de futuro (MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO, 2007).
          • o caráter virtual do self, onde “o passado sempre é fundo para que o agora possibilite um futuro como criação” (BELMINO, 2014, p. 131).
          • a fronteira de contato no campo se dá no limite virtual entre o organismo e o meio, onde o “self” é flexivelmente variável, alterando-se de acordo com as necessidades dominantes que emergem (PERLS, HEFFERLINE EGOODMAN, 1997).
          • Perls, Hefferline e Goodman (1997) descrevem a fisiologia enquanto um sistema de ajustamentos conservativos herdados na interação organismo/ambiente
          • o corpo passa a ser lido enquanto unidade integradora de sentido: “é nele que o sentido da experiência se expressa, e a expressão para Merleau-Ponty se define justamente por esse ato que institui concretude ou facticidade a uma virtualidade ou possibilidade” (ALVIM et al, 2012, p.176).
          O virtual...
          • Virtual segundo Lévy (1999) remete a tradição filosófica definindo-se como aquilo que não é atual, que é possibilidade potencial.
          • Segundo Basso (2016) O virtual é aquilo que existe em potência e não em ato, sua tendência é atualizar-se. Por exemplo, uma árvore está virtualmente presente na semente. Virtual e atual não são contraditórios, mas sim modos diferentesde ser. Já o real é o que de fato existe (p.276).
          Virtualidade, Corpo e Contato...
          • leitura do “self” do Gestalt- terapia (1997) caminham para a compreensão da dimensão virtual como intrínseca a  experiência humana, sendo, portanto, exaltada pelo ciberespaço.
          • Basso (2016) traz que a internet nos colocou “[...] em atualização, reconfiguração de nossas fronteiras no campo organismo/ambiente” (p.294), sendo assim também se evidencia como um lugar de contato.
          • como trazem Perls, Hefferline e Goodman (1997) mesmo havendo contato, nem sempre há “awareness”, portanto, a cibercultura pode reservar em sua condição certas limitações.
          • Almeida e Santos (2017), Capanema e Avanza (2013) e Lima (2009) o ambiente virtual converge para uma exacerbação de representações, onde seus atores ao se enxergarem em um amplo campo de possibilidades trafegam em instabilidade e fluidez.
          • O virtual enquanto um aspecto presente na experiência humana parece assumir no ciberespaço o lugar de figura frente a um fundo de imprevisibilidade.
          • no ciberespaço o caráter virtual do “self” e da experiência se evidencia na explosão desenfreada de possibilidades, tornando a função de ego imersa em um circuito inassimilável e agigantado de informações.
          REFERÊNCIAS
            Artigo: Contato, Virtualidade e Ciberespaço: Uma reflexão à luz da Gestalt-terapia. Rodrigo Pinto Brasil e Marcus César de Borba Belmino